quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Repercute em meu interior...

Estranho vazio...
Como uma grande sala em que,
Observando com cuidado,
Sente-se a falta daquele que sempre esteve lá.

Repercute em meu interior...

Continua a pulsar um coração
Que há pouco parou...
Continua a ressoar
Um amor que seguirá...

Repercute em meu interior...

Em cada respiro,
Continua um pouco daquele que se foi.
Em cada pulsar,
Continua a caminhar em mim,
Um pouco daquele coração que parou.

Repercute em meu interior...

O soar de um Mistério de esperança:
Um dia nos veremos...
E será naquelas moradas cujo caminho,
Você me ensinou a trilhar...

Repercute em meu interior...

A dor, a saudade,
A presença na ausência.
Coisas que agora aprendo a lidar.
Mais um passo em que me ensina.

Repercute em meu interior...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nos passos de Deus...


O que dizer quando “palavrear” não dá conta!
Quando, por breve tempo, tocamos o Mistério que nos rodeia...
Graça de tocar com a alma aquilo que anteriormente já nos tocou...
Palavras são caducas, só conseguem dizer de sua pobreza
depois que o definitivo resvalou nossa pequenez...
Viver a experiência de Moisés: ver os passos de Deus...


Um dos belos textos bíblicos que sempre me encantou é o que se encontra em Ex 33,17-23. No interior de um belo diálogo entre amigos, Moisés pede ao Senhor para ver sua glória. Ver a glória de Deus é deparar-se com o definitivo e o Eterno. Mais do que admirar, é entrar no eterno. Portanto, já não pode viver aquele que viu a glória de Deus. Assim, Deus cobre Moisés com a mão e o coloca na fenda da rocha. O que o santo homem pode ver são os passos de Deus, as costas de Deus.
Esta passagem ilustra bem nossa relação com o Mistério divino. No interior de nossa humanidade, vemos os passos de Deus e, desta forma, vamos desvelando um Mistério que estará sempre passos à nossa frente. O encontro com o definitivo, todos um dia iremos ter. Enquanto participamos desta nossa realidade, vamos, como crianças, colocando os pés no seguimento daquele que está à nossa frente.
Por isso, nossa palavra sobre Deus será sempre caduca. Falamos do Mistério sempre de maneira análoga, a partir das categorias que nos são acessíveis. Nunca esgotamos Deus! Ele é pássaro que não se deixa engaiolar! Quando achamos que engaiolamos Deus nas prisões de nossos conceitos, apreendemos simplesmente uma imagem dele, nada mais. O amor de Deus é muito maior do que aquilo que podemos dizer dele.
Desta forma, nosso discurso é sempre posterior à experiência. Chamados à comunhão com aquele que nos antecede, podemos ir além do “palavrear” e tocar as barras deste Mistério. Dizemos disto depois, mas sempre a partir do falível que somos. A experiência da fé, feita na comunhão com os irmãos e com Deus, é sempre anterior ao que podemos dizer desta comunhão. Dizer é passo segundo, necessário para nossa humanidade crescer, mas nunca definitivo, cabal. Deus não está preso aos nossos conceitos e imagens sobre ele.
Alguns perderam-se e se perdem em tentativas de desvendar um deus de lógica matemática. O nosso, revelado por Jesus, é o Deus da lógica do amor, que muitas vezes rompe o preestabelecido para que a vida aconteça. É por isso que gosto tanto de observar as crianças. Elas vivem, enquanto não são contaminadas pelo vírus de uma falsa adultez, em bela abertura ao mundo, aos outros e para com Deus. Você já viu uma criança deixar de se relacionar com a outra por conta de uma pré-imagem? Eu já vi adultos fazerem isto... Crianças brincam e na liberdade da brincadeira, realmente se conhecem.
A maior verdade de nossa fé declara isto: Deus se fez homem! Não mandou uma cartilha ou um manual, mas quis conviver, manter-se Mistério encarnado em humanidade para continuar a se dizer na eternidade manifesta na Ressurreição. Vemos as ressonâncias da glória, até que esta mesma, porque ao longo do tempo pedagógico de Deus experimentamo-la, manifeste-se realidade participada por nós. Aqui, vivemos, conformando nosso caminhos nos passos daquele que vai à frente desvelando-se na alegria da comunhão de Amor...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entardeceu...

Entardeceu! O sol que ardeu no céu durante o dia se cansou de sua tarefa. Chegou a hora de dormir! Vai se deitar por detrás da casa da Senhora do Carmo. Quer encontrar abrigo e proteção... Com ele vai-se o labor deste dia. Venha a lua com seu fulgurante frescor iluminar as barras de minha casa. Que o repouso aconteça! Que a alma e corpo descansem rodeados pelas lamparinas dos anjos de Deus! Estrelas acesas, pontinhos fosforescentes no véu escuro da noite...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A docilidade da argila...


"Eu quero ser, Jesus amado, como o barro nas mãos do oleiro...."




Sim, somos frágeis. Na lucidez do texto bíblico, pó que retornará ao pó. Para alguns, um arranjo de moléculas que deu certo, e que voltará a se dissolver; nada mais que isto. Utilizando a metáfora do profeta, somos simples vasos. Tomados do pó da terra, trabalhados nos tornamos em argila da carne. Às vezes não tão belos exteriormente, somos vasos que, um dia ou outro, cumprirão seu caminho em meio aos baques da história.


Alguns parariam aí. Mas a beleza da humanidade encontra-se justamente no momento em que, o vaso que somos, torna-se habitação de algo maior. Sustenta este vaso o sopro da vida. Carne, sopro, sentimentos: na intercomunicação destas realidades somos. Plasmados no carinho de um Deus próximo. Que inclusive quis ser vaso, para revelar a verdadeira beleza ali contida.

A água da misericórdia é lançada tantas vezes ao longo do caminho sobre o barro ressequido e rachado que espera por ser refeito. A "poiesia"[1] da vida acontece em meio a tantos refazer, remodelar, ressignificar... Em traços finos das mãos delicadas daquele que conduz o processo.

Um dia o vaso vai ao fogo do definitivo, fica aquilo que ele foi na história do labor de sua construção no diálogo com a mão criadora. Permanece sustentado no amor daquele que o criou. A beleza fica, a sujeira se consome no fogo dos tempos. A docilidade da argila que somos, ao se deixar modelar, revela-se como obra-prima do Eterno-Oleiro. Do mais simples, surge algo que realmente merece permanecer. O crescimento humano acontece justamente no momento em que e argila se faz dócil ao trabalho do Oleiro.

Docilidade: a palavra que permanece, mesmo em meio a um mundo marcado, tantas vezes, pela rigidez dos fechamentos das argilas que não se deixam romper. Docilidade: a palavra do crescimento... Afirmo, sem medo: Felizes os dóceis de espírito, pois amadurecerão para a vida eterna....



[1] Não errei o português (rsrsrs). “Poiesia”, neologismo que utilizo a partir do verbo grego poiésis que significa, dizendo de maneira bem simples, “fazer”, "produzir", “a arte de fazer”.