segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Andanças e caminhos...






Este texto é mais uma partilha de minhas experiências do que uma reflexão espiritual ou teológica. Embora saiba que acabarei chegando ao espiritual... Como vocês bem sabem, sou missionário. Desde o dia em que fiz minha consagração como redentorista, escolhi deixar a segurança de uma família e a certeza de saber em qual lugar repousarei a cabeça. Quando olho para a aliança que carrego na mão esquerda, alegremente me recordo disto, pois sei que todo este deixar está em profunda ligação com a busca mais profunda daquilo que me faz dar passos ao longo dos dias, ou seja, que o Reinado de Deus aconteça um pouquinho mais. Sei que sou instrumento muitas vezes desafinado, mas dócil às afinações do Músico dos músicos.
Nesta salutar insegurança do Reino, ganhei muito. Como no evangelho, posso dizer que deixar me trouxe mais que o dobro aqui. Conheci muitas pessoas que nem em sonho eu poderia pensar. Estive muitos lugares que nunca havia programado passar. Ganhei muitas casas, na alegria da gratuita acolhida. Experimentei sabores diversos. Vi mais dentes nos sorrisos. Senti mais lágrimas sinceras. Pude me tornar mais humano...
Desta forma, cresce sempre a consciência de que, por mais que a estrada seja quase cotidiana, a maior viagem está acontecendo a cada momento. O destino: meu interior. Viagem esta que nem sempre segue a contagem dos quilômetros percorridos. Em algumas vezes, num deslocamento de poucas horas, ando anos-luz dentro de mim. Noutras, tantas horas e poucos centímetros. Esta viagem se dá nos tempos e nos espaços de Deus em mim.
Preocupa-me a automação do humano que vivemos atualmente. As pessoas andam o dia inteiro, perdem-se em tantos movimentos, mas caminham como que zumbis ou robôs. Sistema desumanizante esta nosso: um pai de família sai pela madrugada, antes que os filhos acordem; segue o dia no ritmo desenfreado tão morno quanto a marmita que engole às pressas no almoço; chega em casa, cansado nas altas horas, e nem seus filhos e nem aproveita o melhor com sua esposa.
Descer ao mais profundo de nós mesmos torna-se cada vez mais essencial para salvar nossa humanidade. Isto nenhuma tecnologia moderna pode fazer. Se o interior de nosso coração é o sacrário profundo onde cada pessoa faz sua experiência pessoal de si diante do Deus da vida, é só nesta viagem que se faz possível verdadeiramente crescer, na fé e na humanidade. Se os meios não nos levam a isto, tão logo se esvaziam. Se o ciclo vicioso dos automatismos não são quebrados em favor do ritmo da vida, mata-se o humano que somos...
Como prece, peço a Deus a alegria de poder sempre viajar, mesmo que o futuro me traga dias inteiros em casa. Sem medo, descer aos meus interiores na verdadeira viagem que toda boa andança busca. Quero ser andarilho dos caminhos de Deus em mim! Deus nos abençoe!!!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Noites escuras no coração...


Noite escura no coração,
Um complexo de sentimentos me invade
Na avalanche de notícias que chegam.
Pessoas amadas sofrem...
E eu sofro por elas.

No lugar do peito que pela manhã
Era vigor de pulso alegre,
Um vazio se instala.
Apenas tua silenciosa presença
Envolve-me, Senhor!

Dá-me a palavra certa,
Aquela da confiança
Em meio aos calvários da vida.
Venha ser minha força,
Venha ser minha luz!

Palavra do dia - 27 de janeiro (áudio)

Hokmah - Fernando Pessoa

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Palavra do dia - 25 de janeiro (áudio)

As cores do coração...



 Coração: mais do que um conjunto de músculos pulsantes essenciais para a vida, trata-se de um lugar aonde o mundo se aloja em nós. A vastidão de um horizonte que se abre como espaço vital de acolhida ali se encontra. Lugar dos sentimentos, das assimilações das dores e das alegrias. Transcendente do mero físico ao lugar do sentido apreendido.
Sei que parece estranho dizer, mas nosso coração tem olhos, ouvidos e boca. Vê e escuta a mensagem latente em cada coisa que nos acontece. Expressa-se em linguagem que muitas vezes não damos conta de “palavrear”, como quando um enamorado se cala diante da beleza do ser amado. Processo de elaboração do vivido com as matizes ali encontradas.
Jesus bem sabia disto. Era ao coração das pessoas que ele se dirigia para modificar a vida. Suas palavras e ações não tinham os olhos e os ouvidos do corpo como destinatários principais, mas sim, era o coração que experimentava a presença daquele que provoca e faz a diferença.
Desta feita, torna-se essencial cuidar do coração. Revolver seus mais profundos recantos a fim de encontrar a cor da Vida. Um coração envolvido pelas escuras trevas, fechado e endurecido sobre si mesmo, viverá dos “mofos” criados pelos abafamentos do espírito.
Assusto-me ao perceber tanta gente que anda com os olhares acinzentados, entristecidos. O sentimento me acompanha ao perceber que tantos seguem pela vida surdos e emudecidos, incapazes de perceber a beleza do canto da vida guiada e sustentada pelo Criador de todas as coisas.
“Eis que estou à porta e bato!”, aí a frase do Senhor que quer levar a humanidade à sua plenitude. Deitar e acordar no Senhor, percebendo-o e deixando-se perceber pelo amigo de todas as horas, torna-se lugar fundamental para que as cores da habitação do coração sejam mudadas. Tirar as “ceras” incrustadas em nosso interior para perceber a voz de Deus presente nas pessoas e na história, guiando-nos.
Um verdadeiro processo de cura do interior humano passa pela reelaboração das cores interiores: superar traumas que acinzentam a vida, raspar as cascas de cores que já não nos embelezam. Caminho humano guiado pelo Divino Redentor! Processo povoado pelas ajudas de tantos, especialistas ou amigos, que são presença do Espírito que suscita e sustenta a vida. Seara a ser trabalhada por cada um e por todos...
Para começar a viver a alegria das novas cores, proponho que inclua em sua vida, no início e no final do dia, um momento de revisão a partir do coração. Diante de Deus-Trindade, revele os afetos mais profundos que você traz do dia que viveu e para o dia que viverá. E reze! Profundamente! Verdadeiramente! Deixe-se experimentar o tempo da vida e não siga no piloto-automático. Sabendo-se amado por Deus, encerre e comece os dias no Senhor!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Das ressignificações e das ressurreições...

Atualmente meus dias têm se passado em um profundo movimento de ressignificação das coisas. Vejo isto como muito bom, até como dom de Deus para este momento. Confesso que os ventos estão trazendo novos ares e novas situações que precisam de espaço para florescer. E, para que este espaço se abra, é preciso que algumas posturas e compreensões, até então muito arragaidas em mim, acabem por morrer. Uma espécie de ressurreição necessária: passar pela cruz/crivo da realidade imersa no Cristo, para que a novidade da vida que se renova venha! Quem não se põe neste movimento, é porque já deixou de viver...
Neste processo em que vivo, percebo que a causa de boa parte de nossos sofrimentos encontra-se em um sem número de expectativas que criamos e que não se realizam. Certo desejo semi-manifesto de manipular os caminhos segundo o próprio querer que acaba por se frustrar diante da realidade que se impõe, mais cedo ou mais tarde. Não se trata de deixar de sonhar, mas sim, de lidar com sobriedade a partir da realidade. Aprender a lidar com isto, ou seja, com o constante processo de doar sentido às vivências, sejam frustrações de nosso querer ou realizações do mesmo, é sabedoria de vida.
A primeira coisa a se perceber é que a vida não se manipula. O máximo que se pode é contar, depois do acontecido, as vivências com as cores de nosso interior. Vivemos imersos em uma trama incontável de laços e nós que vamos criando ao passar dos dias. Isto, quase sempre, escapa pelos dedos, uma vez que não dependem somente do indivíduo. Como em um grande tapete, somos um pequeno fio que forma o desenho da vida no entrelaçamento com outros diversos fios. Percebo que um engodo que atualmente se vive, está em pensar que se pode manipular o que está por vir através do pensamento (positivo?).
Pela fé, o segundo passo necessário está em saber que aquele que caminha conosco é Senhor da Vida e da História. A partir da profunda liberdade que nos dotou, ele nos acompanha neste constante processo de deixar que as imagens caiam para que novas e mais consistentes nasçam. Os sofrimentos e as alegrias vão se realizando neste processo da simplicidade complexa de um caminho que se faz na solidariedade. Os discípulos do Cristo viveram isto profundamente na ressurreição do Senhor. Passaram pelo crivo/cruz todo o seu conhecimento sobre Jesus para que a novidade de Deus pudesse doar sentido aos seus caminhos. O mesmo Cristo que eles viram fazer coisas extraordinárias era aquele que se deixou imolar por amor.
Para mim, o apóstolo São Pedro é exemplo do ser-humano aprendiz. Enquanto a cruz se aproximava, "os puxões de orelha" que Jesus lhe dava aumentavam. Pedro estava fixado naquilo que ele queria que acontecesse. Foi capaz até de cortar a orelha do pobre Malco por não compreender os rumos de Deus. Só depois da cruz, em processo de ressurreição, é que ele pode compreender o caminho que Deus fazia com eles. Só ali é que pode ver mais além do que sua parca visão até então alcançava.
Para os discípulos, e para nós, é preciso às vezes se afastar do extraordinário que buscamos, na maioria das vezes, em Jesus, para encontrá-lo, amigo, nos revezes da vida. Saber-se acolhido e acompanhado pelo Mestre, sem viver as pretensões mágicas de uma imagem infantil de um "Deus ex machina"[1] é libertador. Todas as "ações de poder", milagres, do Cristo foram para recolocar e aprofundar os passos no caminho. Os doentes não eram isentados da vida, mas lançados mais plenamente nela. Que o Espírito nos guie sempre nas sendas da verdade. Esta é minha prece por nós hoje...


[1] Expressão latina vinda do grego "ἀπὸ μηχανῆς θεός" (apò mēchans theós), significa literalmente "Deus surgido da máquina". É utilizada para indicar uma solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra de ficção ou drama.

P.S.: Não pude deixar passar: enquanto escrevia este texto, escutava uma música que me ensinou muito: "Te farei vencer". Acho que eu nunca disse à autora/amiga, mas vejo neste CD uma bela peça de espiritualidade que integra vida e fé.
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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Palavra do dia - 17 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O tempo passa? Não passa - Carlos Drummond de Andrade

O tempo passa?
Não passa no abismo do coração
lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu
transcedem qualquer medida.

Além do amor, não ha nada,
amar é o sumo da vida.
Pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade".

Palavra do dia - 12 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Nosso Centro - Thomas Merton


No centro de nosso ser,
existe um ponto como que vazio,
intocado pelo pecado e pela ilusão,
um ponto de pura verdade,
um ponto, uma centelha que
pertence inteiramente a Deus...
Este pontinho "de nada"
e de absoluta pobreza
é a pura glória de Deus em nós...
É como um diamante puríssimo,
a brilhar na luz invisível do céu.
Isso existe em todos os seres humanos,
e, se pudéssemos vê-lo, veríamos
esses milhões de pontos de luz a
ajuntar-se na face e no ardor de
um sol que faria desaparecer
completamente toda a escuridão
e toda a crueldade da vida.

Em Belo Horizonte, preparando-me para dar uma curso de dois dias que se inicia pela manhã. Fiquem com Deus! O Senhor seja sempre nossa luz!

Palavra do dia - 11 de janeiro de 2012



Bom e abençoado dia, meus caros!!!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Na oração, uma poesia...


Há dias em que o corpo quer descanso
Mas a alma insiste em querer voar...

Quer buscar coisas mais altas,
Ver mais além,
Ir tocar as barras do Eterno.

Descansar nas mãos daquele que,
Antes mesmo que ela fosse,
Ele já a amava.

Ó imensa alegria,
Querer estar já em vida,
Nas mãos daquele que é a Eterna Vida.

Toca o céu na terra,
Toca o perfeito no que ainda está se fazendo...

Palavra do dia - 10 de janeiro de 2012



Tenham todos um bom e abençoado dia na presença do Senhor!!!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Hokmah - Santo Afonso Maria de Ligório

"Toda a santidade e perfeição de uma alma consistem em amar Jesus Cristo nosso Deus, nosso sumo bem e nosso Salvador"

Preparando dois dias de formação para os redentoristas do Brasil que se preparam para os votos perpétuos. Depois, quando tiver pronto, partilharei com vocês um pouco do que refleti. Tema: "Presépio, Cruz e Eucaristia: eixos fundamentais para uma espiritualidade integrada e integradora a partir de Santo Afonso".
Fiquem com Deus!!!

Palavra do dia - 09 de janeiro de 2012



Tenham todos um abençoado dia na presença do Senhor!!!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Hokmah - Sören Kierkgaard

Buscando inspiração nesta noite nas frases do grande filósofo  Sören Kierkgaard. Partilho com vocês:

"Sofrer, é só uma vez; vencer, é para a eternidade."

"A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora."

Fiquem com Deus! Que ele sempre seja a estrela dos nossos caminhos!!!

Amanhã tem Palavra do dia depois das 9h30.

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Dos espaços de Deus...

Em nossa última reflexão, "Dos tempos de Deus", meditamos um pouquinho sobre a necessidade de experimentar a dinâmica do tempo como lugar da presença de Deus. Para amar é sempre preciso tempo. É preciso dar tempo para que os tempos de Deus sejam percebidos por nós. A correria que hoje temos, na grande maioria das vezes, nos impede de perceber a grandeza de um Deus que santifica a nossa história. Lembro-me, com grande carinho, da experiência feita com a Liturgia das Horas. Riqueza da tradição de nossa fé, ela nos tem auxiliado, ao longo do caminho cristão, a experimentar a santidade nos diversos momentos do dia. Do acordar ao dormir, que tudo seja feito para honra e glória do nosso Deus!
Convido agora a refletirmos sobre os espaços de Deus em nossas vidas. Como que numa sequência do texto anterior, provoca a você, caro amigo, a pensar no excesso desnecessário de coisas em que nossa vida hodierna se encontra, dando pouco espaço para as experiências simples que nos revelam Deus. Há pouco, zapeava pela televisão até cair em um canal de compras. O vendedor, com sua retórica exaustiva, teimava em apresentar um sem número de quinquilharias, cada qual para exercer apenas uma única tarefa, porém de maneira rápida e eficaz. Entendam meu tom jocoso, mas onde foi parar aquela velha "frigideira do mexidão" que, em sua simplicidade, acolhe o tudo de um pouco na preparação da mais simples das refeições, onde até aquele que não tem destreza culinária faz-se grande chefe.
Vivemos imersos em um sem número de objetos que, muitas vezes, só servem para ocupar espaço depois de saciar o anseio consumista que o ritmo cultural atual nos impõe. Chego até a me sentir provocado ao reparar algumas de nossas liturgias. Não que devemos deixá-las pobres, desprovidas de beleza simbólica. Contudo, percebo que às vezes as liturgias são enchidas de tantas coisas que acabam deixando de revelar o essencial necessário. Pergunto-me: até quando isto não diz do show midiático que presta serviço ao consumismo de nossos dias? Todo símbolo e ação simbólica nas liturgias devem apontar para o único e verdadeiro essencial que é a Trindade que se revela próxima na entrega do Filho único.
Isto revela também certa incapacidade de lidar com os vazios da vida. O silêncio, lugar que fora sempre privilegiado para a experiência de Deus, não tem como acontecer, uma vez que ele também é esvaziar-se. Que fome sem saciedade é esta em que nos encontramos atualmente? Que medo é este de experimentar os vazios da vida? No meio de tanta bagunça, pode acabar não sobrando espaço para Deus!
Assim, proponho que façamos um exercício de cuidado com nossa casa interior. A casa que nós somos, com seus porões, sótãos, salas e quartos, precisa, de tempos em tempos, ser bem cuidada e esvaziada das quinquilharias que vamos amontoando ao longo do tempo. É preciso reencontrar o centro, aquilo que é essencial, e só se pode fazer isto, ao lançar mão de tudo o que é excesso. Que nossa vida não se baseie nos excessos e nas "desnecessidades"... Reencontrar o essencial é primordial para que a vida encontre solo firme e fértil para se desenvolver. Lembrando a reflexão passada, dar tempo e espaço para que Deus seja o tudo em nós. Que Jesus não chore por nós como o fez pelo jovem rico, preso em diversas coisas, não conseguiu ser disponível para Deus!

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Palavra do dia - 08 de janeiro (Epifania do Senhor) áudio



Meus queridos, não se esqueçam de celebrar nossa comunhão com o Senhor hoje. Pertinho de você tem uma comunidade onde se está celebrando a Missa ou uma Celebração da Palavra.
Fiquem com Deus!!!

Hokmah - Clarisse Lispector

Nesta noite estou lendo um pequeno livro de Clarisse Lispector. Deparei-me com a frase que segue abaixo. Nunca me canso com a perspicácia desta mulher. Ela conseguiu tocar o profundamente humano...


"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece."



Palavra do dia - 07/01/2012 (áudio)



Depois de alguns dias de férias, estamos de volta! Aproveitem e compartilhem!!!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Dos tempos de Deus...

Há momentos em que precisamos respirar... Sair da agitação dos dias para perceber as coisas acontecendo e, inclusive, ouvir Deus. A agitação que atualmente vivemos, tende a nos deixar impermeáveis à vida e à voz do Senhor de toda vida. Telefones, computadores, dispositivos móveis... todos estes artifícios tecnológicos imprimem um ritmo acelerado que acaba por tocar e modificar nossa capacidade de assimilação dos tempos da vida e, consequentemente, dos tempos de Deus em nossa vida. Filosoficamente, podemos dizer que a compreensão mais profunda do tempo passa uma real mudança.
Não me compreendam como um apologeta dos bons tempos selvagens, pelo contrário, entendendo e lanço mão das facilidades que a tecnologia trouxe para o nosso momento. Contudo, chamo a sua atenção, caro amigo, para o fato de que a vida possui tempos diversos que nem sempre acompanham a rapidez vertiginosa que a tecnologia imprime. Lembro-me, com um misto de alegria e nostalgia, dos dias de outrora onde se "gastavam" horas em família ao redor de uma mesa, dos tempos em que se vivia a boa espera por uma carta ou notícia de pessoa querida etc. Sinto que estas coisas nos favoreciam elaborar as vivências, presenças e ausências daquilo que realmente importa. Assim, celebrava-se com mais facilidade a presença de um Deus que se revela na história e nos outros. Estar ontem boas horas com uma família de amigos ao redor de uma mesa me ajudou a consolidar esta sabedoria...
Não é sem mais que, nos confessionários e nos consultórios, cresce o número de pessoas que reclamam por se sentirem vazias. Pelas ruas, bom observador pode muito bem perceber o olhar vazio de tantos. Digo, sem reservas, que o ritmo acelerado deixa muito pouco tempo para que o ser humano atual construa-se e elabore seus caminhos. Por isso, tão vazio! Hoje, mais do que antes, é preciso compreender que a vida possui tempos diferentes. A rapidez da internet, por exemplo, não se encaixa no mesmo tempo do "ruminar a vida". Se não pudermos compreender isto, dificilmente compreenderemos os tempos de Deus... Pense nisto... Fique com Deus!
Deixo você com a sabedoria do grande Shakespeare:
"O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno."
P.S.: Esta é a primeira de duas reflexões que brotaram nestas férias. Pena que, por ser para o blog, tive que encurtá-las. Contudo, servem para abrir a reflexão. Segunda postarei, a segunda: Sobre os espaços de Deus...
Perdoem-me por algum errinho que tenha escapado neste texto, não consegui revisá-lo
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