terça-feira, 25 de setembro de 2012

Versículo Bíblico do dia...

"Jesus respondeu: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática"."
                                                                                                                             Lc 8,21

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Versículo Bíblico para o seu dia...

"E, sobre tudo isto, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição". Col 3,14

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Bíblia: uma hístória de Deus com a humanidade...

Todo povo ou nação que pretenda viver profundamente seu presente e deseje sonhar com um futuro, se compreende radicalmente alicerçado em seu passado, ou seja, em sua história. Uma história que não é mero relato "jornalístico", aquele que se pretende isento, buscando a narrativa de um fato "puro", mas envolve sentimento, pertença, carne, vida... Desta forma podemos entender, de maneira concisa, as Sagradas Escrituras: uma história de amor entre Deus e a humanidade.

De antemão, precisamos compreender que este processo de redação custou muito tempo. Vários redatores, em diversos momento históricos, sentiram-se interpelados pelo amor e pela presença do Senhor em sua vida pessoal e comunitária. Assim, a leitura deste texto, escrito por homens inspirados pela graça divina, deve levar em consideração dois aspectos fundamentais: primeiro, só é possível compreendê-lo como texto sagrado, se ele for recebido pela fé, pois supõe a pertença a uma comunidade, um povo ou nação que se compreenda influenciado por aquelas palavras; depois, sua leitura deve levar em consideração os diversos momentos históricos nos quais aquele texto fora escrito para, assim, perceber a palavra eterna de Deus ali contida.

Digo isto porque, ainda hoje, existem pessoas que insistem em ler a bíblia de maneira fechada, como se fosse uma carta direta e atemporal, recebida como um ditado feito por Deus. Pelo contrário, compreender a bíblia como história, nos insere em um contexto vital profundamente amplo, que inclusive passa a tocar de maneira dinâmica desde as questões mais simples até as mais complexas de nosso cotidiano, pois passamos a compreendê-la no interior de uma relação de amor.

Como toda relação, embora os amantes participem do mesmo amor, as partes vivem-no a partir do lugar que lhe é próprio. O amor é o mesmo, mas a maneira de experimentá-lo ganhará as matizes singulares de cada parte. Na história de Deus com a humanidade, Ele se abaixa para se fazer seu amor compreendido pelo ser humano, contudo, Ele continua a ser Deus. Por sua vez, o homem experimenta este amor no interior de sua humanidade, e continua a ser humano.

Não há fusão: Deus continua a ser Deus e o homem continua a ser homem. Contudo, ambos são enriquecidos pelo amor do qual participam. A esta altura, você deve estar se perguntado: com relação ao ser humano, vá lá que ele cresça e se modifique ao participar do Amor que é o próprio Deus, mas como dizer isto de Deus? A beleza narrada na bíblia consiste justamente nisto, uma vez que Deus se aproxima tanto da humanidade, na encarnação, Ele já não mais quer ser compreendido sem esta relação com a humanidade.

No interior desta relação geradora de história, o homem vai se compreendendo a partir do olhar amoroso de Deus. Como um bebê que aprende a falar ouvindo seu pai, como uma criança que se percebe família ao ouvir sua história ultrapassar seus poucos anos de vida ao percebê-la tocada pela de tantos outros na trama das narrativas familiares, a humanidade vai crescendo e se compreendendo como família de Deus, participante de uma gramática eterna de amor que irrompe no tempo e no espaço, ultrapassando-os até chegar ao seu particular tempo e espaço.

Crescendo nesta gramática eterna do amor, a humanidade torna-se ouvinte da Palavra Eterna contida no falível da palavra humana. A verdade do texto bíblico encontra-se justamente naquilo que ultrapassa a mera palavra e se abre como eternidade narrada. Nada na Bíblia é mero conceito, frio e encaixotado, todavia, tudo é experiência que leva ao sabor da vida degusta e participada ao longo dos anos. Não é um livro de história daqueles que encontramos com suas folhas rotas, perdido nos cantos das bibliotecas, mas um livro da experiência viva daqueles que nos precederam nesta saborosa degustação da vida em Deus.

Esta "biblioteca" de vida degustada não foi ajuntada a esmo. Saiba que este livro bonito que você deve ter em sua casa, neste formato só foi possível bem recentemente, depois da invenção da imprensa. Antes, escritos em material muito mais complexo e caro que o papel moderno, em seu estágio primeiro, normalmente, em papiros ou pergaminhos, os textos foram sendo copiados e trocados entre as comunidades que reconheciam sua fé ali expressa. Aos poucos, foram surgindo as primeiras compilações que, futuramente, deram origem à bíblia como a compreendemos hoje. Desta forma, aos poucos foi se constituindo o que chamamos de cânon bíblico. É importante saber que existem vários outros livros que tratam desta história de Deus com a humanidade, mas que não foram reconhecidos pelas comunidade com expressão de sua fé e que, por isto, estão fora da bíblia. Nós os conhecemos como apócrifos.

Escrita em línguas bem antigas, a bíblia para chegar até às traduções em português e outras línguas modernas, seguiu um caminho bem longo. Os livros do Antigo Testamento foram escritos, basicamente, em três idiomas: hebraico, aramaico e grego. Em época bem próxima ao nascimento de Jesus, conhecemos uma tradução geral em grego, conhecida como septuaginta; empreita realizada, segundo conta-se, por setenta sábios, por isto o nome que leva. O novo testamento foi escrito em grego. A primeira tradução para o latim foi feita por São Jerônimo.

Assim, meu caro amigo, termino este breve que quer ser apenas um convite para que você aprofunde sempre mais sua relação com Deus, através dos textos sagrados. É triste perceber que alguns hoje pretendem um proposta religiosa sem história, na imagem de uma "deus" que só serve para resolver os problemas do hoje. Viver uma espiritualidade profundamente bíblia é, sem sombra de dúvidas, compreender-se inserido em uma história de amor que nos ultrapassa, tanto no passado como no futuro. É saber-se participante deste caminho de Deus com a humanidade, consciente de que Deus nos acompanha e nos ama sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, fazendo conosco história. Aproveite este mês que nossa igreja escolheu para reverenciar a Palavra de Deus para começar um caminho de conhecimento e crescimento das Sagradas Escrituras.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Silêncio

Em meio à loucura das palavras, surge um espaço repleto de sentido que se chama silêncio. Guardado no mais profundo de cada indivíduo, renegado por muitos como lugar gerador da ansiedade angustiante, constitui-se como o "pedreiro da existência" a assentar as vivências e as palavras na constituição do que costumamos chamar de identidade. Das palavras esvaziadas e das vivências automatizadas da atualidade, nascem seres de história frágil, de consciência de existir fraca...
O silêncio é, portanto, onde o outro, o diferente, o mundo, pode se realizar efetivamente em nossa história, enriquecendo-a. Antes da palavra, pausa. Depois da palavra, pausa. Como em grande espetáculo, a música da vida ressoa no silêncio final de cada música. Silêncio que antecede as palmas. Silêncio da música que ainda se degusta.
Desta forma, o silêncio não se configura como escala a ser estudada, mas desgustada por todos aqueles que sabem ouvir e se regozijar com a bela sinfonia da vida. Só a partir de uma pausa de mil compassos é que a verdadeira música, aquela em que os acordes calam no mais fundo de cada um, poderá enfim brotar.
Só no silêncio é que se pode degustar a presença do outro. Somente no mais profundo calar é que se pode sentir, mais do que ver, uma bela paisagem, um belo quadro. A fala é posterior. A contemplação silenciosa, anterior. Como da beleza de uma mãe que, antes de discursar sobre o seu pequeno, contempla-o a "nanar" tranquilo em seu regaço. No mais, o resto é "verborragia": hemorragia de palavras mortas que levam à morte da existência...

sábado, 19 de maio de 2012

Poema de Rabindranath Tagore

Aqui é o estrado para os teus pés,
que repousam aqui,
onde vivem os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
Quando tento inclinar-me diante de ti,
a minha reverência não consegue alcançar
a profundidade onde teus pés repousam,
entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
O orgulho nunca pode se aproximar
desse lugar onde caminhas
com as roupas do miserável,
entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
O meu coração jamais pode encontrar
o caminho onde fazes companhia
ao que não tem companheiro,
entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
 
Rabindranath Tagore

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sim: existo dentro do meu corpo

Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar a terra por causa do estômago.
Indiferente?
Não: natural da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa



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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Amizade...

Amizade,

Palavra esvaziada pela

Fome consumista daqueles que

Só veem o que se tem

E não o que se é...

 

Amizade,

Palavra repleta se sentido

Quando se ancora naquele que

É puro amor...

Naquele que é, era e será!

 

Da beleza da humanidade

Que aprende a partilhar a vida

Sob o signo de amizade,

Nasce a certeza de que, um dia,

O céu também será assim...

 

Espaço luminoso onde,

A única e maior benção,

Será estar em comunhão,

Na presença paterna e fraterna...

 

Na imperfeição da terra,

Experimentamos a beleza

Do que há de vir,

Quando a história se torna partilhada

E a vida se torna melhor,

Simplesmente porque se pode dizer,

Amigo e amiga...



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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

sábado, 5 de maio de 2012

Republicando: Amor que se faz história...

"O amor te escapa entre os dedos...". Esta frase, cantada por uma banda bastante popular, expressa bem o desespero de um amor que se acaba. É triste perceber que, na cabeça de muitos, o amor vai se tornando algo assim, fluído, sem pegas, desencarnado, sem história. Não há comunhão; não existe o outro, apenas um falso sentimento de "bem querer" alicerçado em um ego inflado que acaba por ocultar a mais sutil das violências.

Assim provocado, penso na maneira de Deus amar...


Hesed e Rahamim:

O vocábulo hebraico "hesed", comumente traduzido por amor, quase sempre tendo Deus como sujeito, explicita o modo do Amor divino. Na gama de sentidos que encontramos neste simples vocábulo, destacam-se também misericórdia, bondade e benevolência. Hesed, portanto, é amor que faz história, que se encarna, que se responsabiliza. É amor de escolha, gratuito. Amor onde o amante se abaixa na altura do amado. Na dinâmica bíblica, é Aliança (Is 55,3), é eterno (Is 54,8; 55,3; Jr 33,1; Mq 7,20). Deus acolhe um povo em seu amor, para que este povo seja sinal, presença sua para o mundo.

Outro vocábulo hebraico, "primo" no sentido de hesed, é rahamim, que pode muito bem ser traduzido por misericórdia, compaixão. Contudo, sua raiz evoca útero, ventre materno, entranhas. Amor materno. Na maioria das vezes, este termo aparece utilizado em situações em que a vida corre perigo.

Uma das mais belas frases bíblicas que guardo no coração está em Os 14,1: "Eu os lacei com laços de amizade, eu os amarrei com cordas de amor; fazia com eles como quem pega uma criança ao colo e a traz para junto ao rosto. Para dar-lhes de comer eu me abaixava até eles".A imagem é linda: Deus se abaixa na direção da humanidade, como uma mãe a tomar o filho nos braços para o mais belo e sublime ato de carinho e proteção. Este abaixar-se de Deus é hesed e rahamim. Toca-nos com as mãos da graça. Em minha liturgia da horas, carrego um pequeno postal com a frase "Nous sommes a Dieu e à lui nous revenons" (Nós somos de Deus e a ele retornamos) ilustrado com uma singela imagem do rosto de uma criança envolvido pelas mãos maternas.


No amor de Deus, encontramos nosso verdadeiro modo humano de amar...

É hora de redescobrirmos o modo divino de amar... Penso que, apenas quando as máscaras das funcionalidades caem, é que realmente aprendemos a amar e nos responsabilizar por alguém. Lembrando os de escola aristotélica, em Deus não há necessidade. Portanto, não há explicação para a criação, a salvação e a santificação que não seja a gratuidade do amor misericordioso de Deus.

O ser humano não é objeto de ninguém. É pessoa, alguém para ser amado. O salto de qualidade no amor só acontece quando, desarmando-nos, vamos nos encontrando com aquilo que realmente o outro é e, assim, o amamos, e não nos fixamos em imagens criadas por nossas fantasias e necessidades. É processo de desvelamento do Mistério que habita em cada um. À primeira vista, são nossas imagens que falam mais alto. É muito normal. Psicólogos chamariam isso de "transferência". Mas somente crescemos na medida em que os adornos caem e o verdadeiro vai ficando. Assim, o amor deixa de ser fluído, para se tornar história. E isto só acontece quando há comunhão...

P.S.: Amanhã, novo texto: A graça do amor...

domingo, 15 de abril de 2012

"Felizes os que creram sem terem visto..."


Enquanto meditava sobre o evangelho deste final de semana, os olhos do meu coração insistiam em pousar sobre a frase de Jesus dirigida a Tomé: "Felizes os que creram sem terem visto...". Frase de real alcance que toca profundamente nossas realidades, como palavra definitiva, assim como tocou as existências daqueles onze cercados pelo medo e pela desconfiança em ambiente hostil.
Para fazer-me entender, é preciso rememorar o contexto em que aqueles homens se encontravam depois da crucificação de Jesus. Nota forte na aparente melodia dos acontecimentos era o medo. O Mestre fora assassinado na cruz! Um dos amigos que partilhou da mesa cotidiana os traíra! Falar de esperança naquele momento ficara difícil. Desconfiança por todo lado... Vencendo a morte, o Senhor ressurge no meio deles restaurando a esperança e, consequentemente, a vida. Como um divino compositor, retoma o tema da sinfonia vital que parecia encerrada.
Contudo, um deles estava fora de casa: Tomé, o gêmeo. Marcado pela maré de desconfiança, com o coração sofrido, não conseguia acreditar na palavra dos outros, que aos ouvidos doloridos, pareciam loucura e boato... Tocar o lado; preencher com os dedos a lacuna causada pelos cravos; sentir encurtar os espaços vazios abertos pela morte: este era o desejo do coração cansado de Tomé. Sanada a dúvida, o sentido dos acontecimentos é ampliado em sua duração espaço-temporal: o ressuscitado está até onde ele parece não estar...
Voltando para nosso lugar na história, muitas vezes marcado pela desconfiança, medo e falta de esperança, somos tentados a agir como o ferido Tomé. Cindidos, não nos é possível ver além. "Aonde colocaram o Senhor?" ressoa como pergunta para muitos nestes tempos. Da boca do Ressuscitado, a resposta: "Felizes os que creram, mesmo sem terem visto...". Feliz é o ser humano que, em meio às névoas do tempo presente, consegue percebê-lo como "tempo da esperança", na alegria do Caminho que é o Crucificado-Ressuscitado.
Para além das aparências está o Ressuscitado, rompendo espaço e tempo, estando até onde ele parece não estar. Ver sem ter visto, acreditar que a vida pode vencer a morte, mesmo em meio à dor e da ausente possibilidade de esperar. Da cruz nasce a palavra definitiva do Cristo: ele estará conosco até o final dos tempos. Esperando contra toda esperança, podemos ver, com os olhos da fé, a presença daquele que redimiu a vida humana de seu cárcere no mero aparente, levando a humanidade a ser mais, imersa no Mistério do amor Trinitário.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Lua...



Lua e seus mistérios...
Satélite a rodar em torno de nossa casa
Olhar sereno e cintilante
A iluminar noite escura...

Lua das palavras inauditas
Lua dos mistérios insondáveis
Por mais que digam que a conheçam
Mas ainda para mim é mistério...

Luas do meu interior...
Luas do mistério que sou...
Mistério sonhado e sondado constantemente
Pelo amor daquele que primeiro me amou.

Nas noites escuras,
Pequena ponte de luz se levanta
A ligar os diversos caminhos
Que transcorrem em meu ser...

Lua dos caminheiros,
Daqueles que buscam
Por algo a mais,
Mesmo que a noite aconteça.

Lua das minhas fases,
A cuidar do meu caminho de liberdade,
Em crescimento para ser
Todo cheio do amor-Trindade.

Bússola da natureza,
Me fala do Cristo,
Norte, fim, céu, sentido
De todos os meus caminhos...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Hokmah

"Cada pessoa que passava pela vida de Jesus era única, diferente, distinta; era alteridade com a qual Jesus mantinha uma relação não alérgica, mas de hospedagem, de acolhida em seu coração, para conferir-lhe valor."

Maria Joaquina Fernandes Pinto
Jesus Cristo e a vivência da afetividade.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Hokmah - Mestre Eckhart

"Se a única oração que você diz em toda a sua vida é 'obrigado', isso já bastaria."

Caminhando com as Escrituras - Ficha I

Texto publicado no mês passado no Informativo "Redentor do Vale" da Paróquia São Sebastião de Coronel Fabriciano - MG. Espero que gostem!!!


Meus queridos amigos e amigas, luz e paz da parte de nosso Redentor para vocês e suas famílias!

A partir deste mês, nossa coluna ganhará um rosto mais formativo. Partilhando algumas coisas de meus estudos em Sagradas Escrituras, aprofundaremos um pouco mais nosso conhecimento da bela teologia presente nos textos sagrados. Como primeiro estudo, traremos alguns pontos importantes no esquema do evangelho de São Marcos. Esta escolha não é sem mais: estamos no ciclo litúrgico B e, durante o tempo comum, é este evangelho que será refletido em nossas comunidades nas celebrações dominicais.

Seguiremos um esquema de fichas de compreensão compostas por informações sobre o texto e perguntas para reflexão pessoal e/ou comunitária. Espero que este trabalho lhe ajude no crescimento e na compreensão da fé. Coloco meu e-mail disponível para qualquer dúvida que você quiser partilhar: dalbemcssr@gmail.com . Dentro do possível, responderemos nesta secção de nosso informativo paroquial. Que o Espírito Santo nos acompanhe sempre, doando-nos sua luz que abre nossas vidas para a experiência profunda do Mistério!

 

Ficha I: Qual a pergunta fundamental de Marcos?

 

O Evangelho de Marcos é o primeiro evangelho canônico[1] na ordem cronológica. Com alguma divergência, estudiosos afirmam que fora escrito por volta da década de 60 ou 70 do primeiro século da era cristã.

O evangelista tem como preocupação principal corrigir determinada visão sobre Jesus como o Cristo/Messias. É importante sabermos, desde já, que na fé de Israel, figuravam basicamente três imagens para o Messias: profeta, sacerdote e rei. Contudo, nenhuma delas se encaixava perfeitamente à pessoa de Jesus, uma vez que serviam apenas para reafirmar o sistema caduco vigente até então. Por exemplo, a visão do Messias da realeza compreendia que o esperado viria restaurar a monarquia em Jerusalém, libertando o povo do jugo romano, e faria Israel retomar o poder e o esplendor dos antigos tempos de Davi e Salomão. Contudo, ele não mudaria em nada o esquema marcado pelas divisões classistas e opressoras.

De maneira muito simples, o autor narra os fatos e a prática da vida de Jesus, não se importando tanto em responder com discursos teológicos de grande poder retórico. Desta feita, mostra o Reinado de Deus acontecendo na simplicidade dos tempos (Mc 1,15), alterando, a partir de dentro, as relações humanas: o poder é substituído pelo serviço, o comércio pela partilha, a alienação pela capacidade de ver e ouvir a realidade[2]. Assim, apresenta um Messias diferente das expectativas criadas pelos chefes e teólogos do povo. Mas que Messias é este? Esta é a pergunta que guiará os passos de São Marcos. No próximo mês trabalharemos esta questão. Até lá!

 

Questões para aprofundamento:

1.      Qual a imagem que faço/fazemos de Jesus?

2.      Deixamos Deus ser Deus em nossas vidas, ou queremos que ele se encaixe em nossas imagens pré-determinadas, dependentes de nossas carências?



[1] Por canônico entenda-se aquele que faz parte do cânon das Escrituras, ou seja, que compõe a nossa bíblia. Diversos foram os textos produzidos por comunidades específicas e pessoas ligadas a elas nos primeiros séculos. Contudo, nem todos foram reconhecidos pelo conjunto das comunidades como expressando sua fé comum. A estes outros textos classificamos de "apócrifos".

[2] Introdução ao Evangelho de Marcos. Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Repercute em meu interior...

Estranho vazio...
Como uma grande sala em que,
Observando com cuidado,
Sente-se a falta daquele que sempre esteve lá.

Repercute em meu interior...

Continua a pulsar um coração
Que há pouco parou...
Continua a ressoar
Um amor que seguirá...

Repercute em meu interior...

Em cada respiro,
Continua um pouco daquele que se foi.
Em cada pulsar,
Continua a caminhar em mim,
Um pouco daquele coração que parou.

Repercute em meu interior...

O soar de um Mistério de esperança:
Um dia nos veremos...
E será naquelas moradas cujo caminho,
Você me ensinou a trilhar...

Repercute em meu interior...

A dor, a saudade,
A presença na ausência.
Coisas que agora aprendo a lidar.
Mais um passo em que me ensina.

Repercute em meu interior...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nos passos de Deus...


O que dizer quando “palavrear” não dá conta!
Quando, por breve tempo, tocamos o Mistério que nos rodeia...
Graça de tocar com a alma aquilo que anteriormente já nos tocou...
Palavras são caducas, só conseguem dizer de sua pobreza
depois que o definitivo resvalou nossa pequenez...
Viver a experiência de Moisés: ver os passos de Deus...


Um dos belos textos bíblicos que sempre me encantou é o que se encontra em Ex 33,17-23. No interior de um belo diálogo entre amigos, Moisés pede ao Senhor para ver sua glória. Ver a glória de Deus é deparar-se com o definitivo e o Eterno. Mais do que admirar, é entrar no eterno. Portanto, já não pode viver aquele que viu a glória de Deus. Assim, Deus cobre Moisés com a mão e o coloca na fenda da rocha. O que o santo homem pode ver são os passos de Deus, as costas de Deus.
Esta passagem ilustra bem nossa relação com o Mistério divino. No interior de nossa humanidade, vemos os passos de Deus e, desta forma, vamos desvelando um Mistério que estará sempre passos à nossa frente. O encontro com o definitivo, todos um dia iremos ter. Enquanto participamos desta nossa realidade, vamos, como crianças, colocando os pés no seguimento daquele que está à nossa frente.
Por isso, nossa palavra sobre Deus será sempre caduca. Falamos do Mistério sempre de maneira análoga, a partir das categorias que nos são acessíveis. Nunca esgotamos Deus! Ele é pássaro que não se deixa engaiolar! Quando achamos que engaiolamos Deus nas prisões de nossos conceitos, apreendemos simplesmente uma imagem dele, nada mais. O amor de Deus é muito maior do que aquilo que podemos dizer dele.
Desta forma, nosso discurso é sempre posterior à experiência. Chamados à comunhão com aquele que nos antecede, podemos ir além do “palavrear” e tocar as barras deste Mistério. Dizemos disto depois, mas sempre a partir do falível que somos. A experiência da fé, feita na comunhão com os irmãos e com Deus, é sempre anterior ao que podemos dizer desta comunhão. Dizer é passo segundo, necessário para nossa humanidade crescer, mas nunca definitivo, cabal. Deus não está preso aos nossos conceitos e imagens sobre ele.
Alguns perderam-se e se perdem em tentativas de desvendar um deus de lógica matemática. O nosso, revelado por Jesus, é o Deus da lógica do amor, que muitas vezes rompe o preestabelecido para que a vida aconteça. É por isso que gosto tanto de observar as crianças. Elas vivem, enquanto não são contaminadas pelo vírus de uma falsa adultez, em bela abertura ao mundo, aos outros e para com Deus. Você já viu uma criança deixar de se relacionar com a outra por conta de uma pré-imagem? Eu já vi adultos fazerem isto... Crianças brincam e na liberdade da brincadeira, realmente se conhecem.
A maior verdade de nossa fé declara isto: Deus se fez homem! Não mandou uma cartilha ou um manual, mas quis conviver, manter-se Mistério encarnado em humanidade para continuar a se dizer na eternidade manifesta na Ressurreição. Vemos as ressonâncias da glória, até que esta mesma, porque ao longo do tempo pedagógico de Deus experimentamo-la, manifeste-se realidade participada por nós. Aqui, vivemos, conformando nosso caminhos nos passos daquele que vai à frente desvelando-se na alegria da comunhão de Amor...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entardeceu...

Entardeceu! O sol que ardeu no céu durante o dia se cansou de sua tarefa. Chegou a hora de dormir! Vai se deitar por detrás da casa da Senhora do Carmo. Quer encontrar abrigo e proteção... Com ele vai-se o labor deste dia. Venha a lua com seu fulgurante frescor iluminar as barras de minha casa. Que o repouso aconteça! Que a alma e corpo descansem rodeados pelas lamparinas dos anjos de Deus! Estrelas acesas, pontinhos fosforescentes no véu escuro da noite...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A docilidade da argila...


"Eu quero ser, Jesus amado, como o barro nas mãos do oleiro...."




Sim, somos frágeis. Na lucidez do texto bíblico, pó que retornará ao pó. Para alguns, um arranjo de moléculas que deu certo, e que voltará a se dissolver; nada mais que isto. Utilizando a metáfora do profeta, somos simples vasos. Tomados do pó da terra, trabalhados nos tornamos em argila da carne. Às vezes não tão belos exteriormente, somos vasos que, um dia ou outro, cumprirão seu caminho em meio aos baques da história.


Alguns parariam aí. Mas a beleza da humanidade encontra-se justamente no momento em que, o vaso que somos, torna-se habitação de algo maior. Sustenta este vaso o sopro da vida. Carne, sopro, sentimentos: na intercomunicação destas realidades somos. Plasmados no carinho de um Deus próximo. Que inclusive quis ser vaso, para revelar a verdadeira beleza ali contida.

A água da misericórdia é lançada tantas vezes ao longo do caminho sobre o barro ressequido e rachado que espera por ser refeito. A "poiesia"[1] da vida acontece em meio a tantos refazer, remodelar, ressignificar... Em traços finos das mãos delicadas daquele que conduz o processo.

Um dia o vaso vai ao fogo do definitivo, fica aquilo que ele foi na história do labor de sua construção no diálogo com a mão criadora. Permanece sustentado no amor daquele que o criou. A beleza fica, a sujeira se consome no fogo dos tempos. A docilidade da argila que somos, ao se deixar modelar, revela-se como obra-prima do Eterno-Oleiro. Do mais simples, surge algo que realmente merece permanecer. O crescimento humano acontece justamente no momento em que e argila se faz dócil ao trabalho do Oleiro.

Docilidade: a palavra que permanece, mesmo em meio a um mundo marcado, tantas vezes, pela rigidez dos fechamentos das argilas que não se deixam romper. Docilidade: a palavra do crescimento... Afirmo, sem medo: Felizes os dóceis de espírito, pois amadurecerão para a vida eterna....



[1] Não errei o português (rsrsrs). “Poiesia”, neologismo que utilizo a partir do verbo grego poiésis que significa, dizendo de maneira bem simples, “fazer”, "produzir", “a arte de fazer”.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Andanças e caminhos...






Este texto é mais uma partilha de minhas experiências do que uma reflexão espiritual ou teológica. Embora saiba que acabarei chegando ao espiritual... Como vocês bem sabem, sou missionário. Desde o dia em que fiz minha consagração como redentorista, escolhi deixar a segurança de uma família e a certeza de saber em qual lugar repousarei a cabeça. Quando olho para a aliança que carrego na mão esquerda, alegremente me recordo disto, pois sei que todo este deixar está em profunda ligação com a busca mais profunda daquilo que me faz dar passos ao longo dos dias, ou seja, que o Reinado de Deus aconteça um pouquinho mais. Sei que sou instrumento muitas vezes desafinado, mas dócil às afinações do Músico dos músicos.
Nesta salutar insegurança do Reino, ganhei muito. Como no evangelho, posso dizer que deixar me trouxe mais que o dobro aqui. Conheci muitas pessoas que nem em sonho eu poderia pensar. Estive muitos lugares que nunca havia programado passar. Ganhei muitas casas, na alegria da gratuita acolhida. Experimentei sabores diversos. Vi mais dentes nos sorrisos. Senti mais lágrimas sinceras. Pude me tornar mais humano...
Desta forma, cresce sempre a consciência de que, por mais que a estrada seja quase cotidiana, a maior viagem está acontecendo a cada momento. O destino: meu interior. Viagem esta que nem sempre segue a contagem dos quilômetros percorridos. Em algumas vezes, num deslocamento de poucas horas, ando anos-luz dentro de mim. Noutras, tantas horas e poucos centímetros. Esta viagem se dá nos tempos e nos espaços de Deus em mim.
Preocupa-me a automação do humano que vivemos atualmente. As pessoas andam o dia inteiro, perdem-se em tantos movimentos, mas caminham como que zumbis ou robôs. Sistema desumanizante esta nosso: um pai de família sai pela madrugada, antes que os filhos acordem; segue o dia no ritmo desenfreado tão morno quanto a marmita que engole às pressas no almoço; chega em casa, cansado nas altas horas, e nem seus filhos e nem aproveita o melhor com sua esposa.
Descer ao mais profundo de nós mesmos torna-se cada vez mais essencial para salvar nossa humanidade. Isto nenhuma tecnologia moderna pode fazer. Se o interior de nosso coração é o sacrário profundo onde cada pessoa faz sua experiência pessoal de si diante do Deus da vida, é só nesta viagem que se faz possível verdadeiramente crescer, na fé e na humanidade. Se os meios não nos levam a isto, tão logo se esvaziam. Se o ciclo vicioso dos automatismos não são quebrados em favor do ritmo da vida, mata-se o humano que somos...
Como prece, peço a Deus a alegria de poder sempre viajar, mesmo que o futuro me traga dias inteiros em casa. Sem medo, descer aos meus interiores na verdadeira viagem que toda boa andança busca. Quero ser andarilho dos caminhos de Deus em mim! Deus nos abençoe!!!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Noites escuras no coração...


Noite escura no coração,
Um complexo de sentimentos me invade
Na avalanche de notícias que chegam.
Pessoas amadas sofrem...
E eu sofro por elas.

No lugar do peito que pela manhã
Era vigor de pulso alegre,
Um vazio se instala.
Apenas tua silenciosa presença
Envolve-me, Senhor!

Dá-me a palavra certa,
Aquela da confiança
Em meio aos calvários da vida.
Venha ser minha força,
Venha ser minha luz!

Palavra do dia - 27 de janeiro (áudio)

Hokmah - Fernando Pessoa

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Palavra do dia - 25 de janeiro (áudio)

As cores do coração...



 Coração: mais do que um conjunto de músculos pulsantes essenciais para a vida, trata-se de um lugar aonde o mundo se aloja em nós. A vastidão de um horizonte que se abre como espaço vital de acolhida ali se encontra. Lugar dos sentimentos, das assimilações das dores e das alegrias. Transcendente do mero físico ao lugar do sentido apreendido.
Sei que parece estranho dizer, mas nosso coração tem olhos, ouvidos e boca. Vê e escuta a mensagem latente em cada coisa que nos acontece. Expressa-se em linguagem que muitas vezes não damos conta de “palavrear”, como quando um enamorado se cala diante da beleza do ser amado. Processo de elaboração do vivido com as matizes ali encontradas.
Jesus bem sabia disto. Era ao coração das pessoas que ele se dirigia para modificar a vida. Suas palavras e ações não tinham os olhos e os ouvidos do corpo como destinatários principais, mas sim, era o coração que experimentava a presença daquele que provoca e faz a diferença.
Desta feita, torna-se essencial cuidar do coração. Revolver seus mais profundos recantos a fim de encontrar a cor da Vida. Um coração envolvido pelas escuras trevas, fechado e endurecido sobre si mesmo, viverá dos “mofos” criados pelos abafamentos do espírito.
Assusto-me ao perceber tanta gente que anda com os olhares acinzentados, entristecidos. O sentimento me acompanha ao perceber que tantos seguem pela vida surdos e emudecidos, incapazes de perceber a beleza do canto da vida guiada e sustentada pelo Criador de todas as coisas.
“Eis que estou à porta e bato!”, aí a frase do Senhor que quer levar a humanidade à sua plenitude. Deitar e acordar no Senhor, percebendo-o e deixando-se perceber pelo amigo de todas as horas, torna-se lugar fundamental para que as cores da habitação do coração sejam mudadas. Tirar as “ceras” incrustadas em nosso interior para perceber a voz de Deus presente nas pessoas e na história, guiando-nos.
Um verdadeiro processo de cura do interior humano passa pela reelaboração das cores interiores: superar traumas que acinzentam a vida, raspar as cascas de cores que já não nos embelezam. Caminho humano guiado pelo Divino Redentor! Processo povoado pelas ajudas de tantos, especialistas ou amigos, que são presença do Espírito que suscita e sustenta a vida. Seara a ser trabalhada por cada um e por todos...
Para começar a viver a alegria das novas cores, proponho que inclua em sua vida, no início e no final do dia, um momento de revisão a partir do coração. Diante de Deus-Trindade, revele os afetos mais profundos que você traz do dia que viveu e para o dia que viverá. E reze! Profundamente! Verdadeiramente! Deixe-se experimentar o tempo da vida e não siga no piloto-automático. Sabendo-se amado por Deus, encerre e comece os dias no Senhor!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Das ressignificações e das ressurreições...

Atualmente meus dias têm se passado em um profundo movimento de ressignificação das coisas. Vejo isto como muito bom, até como dom de Deus para este momento. Confesso que os ventos estão trazendo novos ares e novas situações que precisam de espaço para florescer. E, para que este espaço se abra, é preciso que algumas posturas e compreensões, até então muito arragaidas em mim, acabem por morrer. Uma espécie de ressurreição necessária: passar pela cruz/crivo da realidade imersa no Cristo, para que a novidade da vida que se renova venha! Quem não se põe neste movimento, é porque já deixou de viver...
Neste processo em que vivo, percebo que a causa de boa parte de nossos sofrimentos encontra-se em um sem número de expectativas que criamos e que não se realizam. Certo desejo semi-manifesto de manipular os caminhos segundo o próprio querer que acaba por se frustrar diante da realidade que se impõe, mais cedo ou mais tarde. Não se trata de deixar de sonhar, mas sim, de lidar com sobriedade a partir da realidade. Aprender a lidar com isto, ou seja, com o constante processo de doar sentido às vivências, sejam frustrações de nosso querer ou realizações do mesmo, é sabedoria de vida.
A primeira coisa a se perceber é que a vida não se manipula. O máximo que se pode é contar, depois do acontecido, as vivências com as cores de nosso interior. Vivemos imersos em uma trama incontável de laços e nós que vamos criando ao passar dos dias. Isto, quase sempre, escapa pelos dedos, uma vez que não dependem somente do indivíduo. Como em um grande tapete, somos um pequeno fio que forma o desenho da vida no entrelaçamento com outros diversos fios. Percebo que um engodo que atualmente se vive, está em pensar que se pode manipular o que está por vir através do pensamento (positivo?).
Pela fé, o segundo passo necessário está em saber que aquele que caminha conosco é Senhor da Vida e da História. A partir da profunda liberdade que nos dotou, ele nos acompanha neste constante processo de deixar que as imagens caiam para que novas e mais consistentes nasçam. Os sofrimentos e as alegrias vão se realizando neste processo da simplicidade complexa de um caminho que se faz na solidariedade. Os discípulos do Cristo viveram isto profundamente na ressurreição do Senhor. Passaram pelo crivo/cruz todo o seu conhecimento sobre Jesus para que a novidade de Deus pudesse doar sentido aos seus caminhos. O mesmo Cristo que eles viram fazer coisas extraordinárias era aquele que se deixou imolar por amor.
Para mim, o apóstolo São Pedro é exemplo do ser-humano aprendiz. Enquanto a cruz se aproximava, "os puxões de orelha" que Jesus lhe dava aumentavam. Pedro estava fixado naquilo que ele queria que acontecesse. Foi capaz até de cortar a orelha do pobre Malco por não compreender os rumos de Deus. Só depois da cruz, em processo de ressurreição, é que ele pode compreender o caminho que Deus fazia com eles. Só ali é que pode ver mais além do que sua parca visão até então alcançava.
Para os discípulos, e para nós, é preciso às vezes se afastar do extraordinário que buscamos, na maioria das vezes, em Jesus, para encontrá-lo, amigo, nos revezes da vida. Saber-se acolhido e acompanhado pelo Mestre, sem viver as pretensões mágicas de uma imagem infantil de um "Deus ex machina"[1] é libertador. Todas as "ações de poder", milagres, do Cristo foram para recolocar e aprofundar os passos no caminho. Os doentes não eram isentados da vida, mas lançados mais plenamente nela. Que o Espírito nos guie sempre nas sendas da verdade. Esta é minha prece por nós hoje...


[1] Expressão latina vinda do grego "ἀπὸ μηχανῆς θεός" (apò mēchans theós), significa literalmente "Deus surgido da máquina". É utilizada para indicar uma solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra de ficção ou drama.

P.S.: Não pude deixar passar: enquanto escrevia este texto, escutava uma música que me ensinou muito: "Te farei vencer". Acho que eu nunca disse à autora/amiga, mas vejo neste CD uma bela peça de espiritualidade que integra vida e fé.
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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Palavra do dia - 17 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O tempo passa? Não passa - Carlos Drummond de Andrade

O tempo passa?
Não passa no abismo do coração
lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu
transcedem qualquer medida.

Além do amor, não ha nada,
amar é o sumo da vida.
Pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade".

Palavra do dia - 12 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Nosso Centro - Thomas Merton


No centro de nosso ser,
existe um ponto como que vazio,
intocado pelo pecado e pela ilusão,
um ponto de pura verdade,
um ponto, uma centelha que
pertence inteiramente a Deus...
Este pontinho "de nada"
e de absoluta pobreza
é a pura glória de Deus em nós...
É como um diamante puríssimo,
a brilhar na luz invisível do céu.
Isso existe em todos os seres humanos,
e, se pudéssemos vê-lo, veríamos
esses milhões de pontos de luz a
ajuntar-se na face e no ardor de
um sol que faria desaparecer
completamente toda a escuridão
e toda a crueldade da vida.

Em Belo Horizonte, preparando-me para dar uma curso de dois dias que se inicia pela manhã. Fiquem com Deus! O Senhor seja sempre nossa luz!

Palavra do dia - 11 de janeiro de 2012



Bom e abençoado dia, meus caros!!!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Na oração, uma poesia...


Há dias em que o corpo quer descanso
Mas a alma insiste em querer voar...

Quer buscar coisas mais altas,
Ver mais além,
Ir tocar as barras do Eterno.

Descansar nas mãos daquele que,
Antes mesmo que ela fosse,
Ele já a amava.

Ó imensa alegria,
Querer estar já em vida,
Nas mãos daquele que é a Eterna Vida.

Toca o céu na terra,
Toca o perfeito no que ainda está se fazendo...

Palavra do dia - 10 de janeiro de 2012



Tenham todos um bom e abençoado dia na presença do Senhor!!!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Hokmah - Santo Afonso Maria de Ligório

"Toda a santidade e perfeição de uma alma consistem em amar Jesus Cristo nosso Deus, nosso sumo bem e nosso Salvador"

Preparando dois dias de formação para os redentoristas do Brasil que se preparam para os votos perpétuos. Depois, quando tiver pronto, partilharei com vocês um pouco do que refleti. Tema: "Presépio, Cruz e Eucaristia: eixos fundamentais para uma espiritualidade integrada e integradora a partir de Santo Afonso".
Fiquem com Deus!!!

Palavra do dia - 09 de janeiro de 2012



Tenham todos um abençoado dia na presença do Senhor!!!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Hokmah - Sören Kierkgaard

Buscando inspiração nesta noite nas frases do grande filósofo  Sören Kierkgaard. Partilho com vocês:

"Sofrer, é só uma vez; vencer, é para a eternidade."

"A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora."

Fiquem com Deus! Que ele sempre seja a estrela dos nossos caminhos!!!

Amanhã tem Palavra do dia depois das 9h30.

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Dos espaços de Deus...

Em nossa última reflexão, "Dos tempos de Deus", meditamos um pouquinho sobre a necessidade de experimentar a dinâmica do tempo como lugar da presença de Deus. Para amar é sempre preciso tempo. É preciso dar tempo para que os tempos de Deus sejam percebidos por nós. A correria que hoje temos, na grande maioria das vezes, nos impede de perceber a grandeza de um Deus que santifica a nossa história. Lembro-me, com grande carinho, da experiência feita com a Liturgia das Horas. Riqueza da tradição de nossa fé, ela nos tem auxiliado, ao longo do caminho cristão, a experimentar a santidade nos diversos momentos do dia. Do acordar ao dormir, que tudo seja feito para honra e glória do nosso Deus!
Convido agora a refletirmos sobre os espaços de Deus em nossas vidas. Como que numa sequência do texto anterior, provoca a você, caro amigo, a pensar no excesso desnecessário de coisas em que nossa vida hodierna se encontra, dando pouco espaço para as experiências simples que nos revelam Deus. Há pouco, zapeava pela televisão até cair em um canal de compras. O vendedor, com sua retórica exaustiva, teimava em apresentar um sem número de quinquilharias, cada qual para exercer apenas uma única tarefa, porém de maneira rápida e eficaz. Entendam meu tom jocoso, mas onde foi parar aquela velha "frigideira do mexidão" que, em sua simplicidade, acolhe o tudo de um pouco na preparação da mais simples das refeições, onde até aquele que não tem destreza culinária faz-se grande chefe.
Vivemos imersos em um sem número de objetos que, muitas vezes, só servem para ocupar espaço depois de saciar o anseio consumista que o ritmo cultural atual nos impõe. Chego até a me sentir provocado ao reparar algumas de nossas liturgias. Não que devemos deixá-las pobres, desprovidas de beleza simbólica. Contudo, percebo que às vezes as liturgias são enchidas de tantas coisas que acabam deixando de revelar o essencial necessário. Pergunto-me: até quando isto não diz do show midiático que presta serviço ao consumismo de nossos dias? Todo símbolo e ação simbólica nas liturgias devem apontar para o único e verdadeiro essencial que é a Trindade que se revela próxima na entrega do Filho único.
Isto revela também certa incapacidade de lidar com os vazios da vida. O silêncio, lugar que fora sempre privilegiado para a experiência de Deus, não tem como acontecer, uma vez que ele também é esvaziar-se. Que fome sem saciedade é esta em que nos encontramos atualmente? Que medo é este de experimentar os vazios da vida? No meio de tanta bagunça, pode acabar não sobrando espaço para Deus!
Assim, proponho que façamos um exercício de cuidado com nossa casa interior. A casa que nós somos, com seus porões, sótãos, salas e quartos, precisa, de tempos em tempos, ser bem cuidada e esvaziada das quinquilharias que vamos amontoando ao longo do tempo. É preciso reencontrar o centro, aquilo que é essencial, e só se pode fazer isto, ao lançar mão de tudo o que é excesso. Que nossa vida não se baseie nos excessos e nas "desnecessidades"... Reencontrar o essencial é primordial para que a vida encontre solo firme e fértil para se desenvolver. Lembrando a reflexão passada, dar tempo e espaço para que Deus seja o tudo em nós. Que Jesus não chore por nós como o fez pelo jovem rico, preso em diversas coisas, não conseguiu ser disponível para Deus!

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Palavra do dia - 08 de janeiro (Epifania do Senhor) áudio



Meus queridos, não se esqueçam de celebrar nossa comunhão com o Senhor hoje. Pertinho de você tem uma comunidade onde se está celebrando a Missa ou uma Celebração da Palavra.
Fiquem com Deus!!!

Hokmah - Clarisse Lispector

Nesta noite estou lendo um pequeno livro de Clarisse Lispector. Deparei-me com a frase que segue abaixo. Nunca me canso com a perspicácia desta mulher. Ela conseguiu tocar o profundamente humano...


"Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece."



Palavra do dia - 07/01/2012 (áudio)



Depois de alguns dias de férias, estamos de volta! Aproveitem e compartilhem!!!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Dos tempos de Deus...

Há momentos em que precisamos respirar... Sair da agitação dos dias para perceber as coisas acontecendo e, inclusive, ouvir Deus. A agitação que atualmente vivemos, tende a nos deixar impermeáveis à vida e à voz do Senhor de toda vida. Telefones, computadores, dispositivos móveis... todos estes artifícios tecnológicos imprimem um ritmo acelerado que acaba por tocar e modificar nossa capacidade de assimilação dos tempos da vida e, consequentemente, dos tempos de Deus em nossa vida. Filosoficamente, podemos dizer que a compreensão mais profunda do tempo passa uma real mudança.
Não me compreendam como um apologeta dos bons tempos selvagens, pelo contrário, entendendo e lanço mão das facilidades que a tecnologia trouxe para o nosso momento. Contudo, chamo a sua atenção, caro amigo, para o fato de que a vida possui tempos diversos que nem sempre acompanham a rapidez vertiginosa que a tecnologia imprime. Lembro-me, com um misto de alegria e nostalgia, dos dias de outrora onde se "gastavam" horas em família ao redor de uma mesa, dos tempos em que se vivia a boa espera por uma carta ou notícia de pessoa querida etc. Sinto que estas coisas nos favoreciam elaborar as vivências, presenças e ausências daquilo que realmente importa. Assim, celebrava-se com mais facilidade a presença de um Deus que se revela na história e nos outros. Estar ontem boas horas com uma família de amigos ao redor de uma mesa me ajudou a consolidar esta sabedoria...
Não é sem mais que, nos confessionários e nos consultórios, cresce o número de pessoas que reclamam por se sentirem vazias. Pelas ruas, bom observador pode muito bem perceber o olhar vazio de tantos. Digo, sem reservas, que o ritmo acelerado deixa muito pouco tempo para que o ser humano atual construa-se e elabore seus caminhos. Por isso, tão vazio! Hoje, mais do que antes, é preciso compreender que a vida possui tempos diferentes. A rapidez da internet, por exemplo, não se encaixa no mesmo tempo do "ruminar a vida". Se não pudermos compreender isto, dificilmente compreenderemos os tempos de Deus... Pense nisto... Fique com Deus!
Deixo você com a sabedoria do grande Shakespeare:
"O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno."
P.S.: Esta é a primeira de duas reflexões que brotaram nestas férias. Pena que, por ser para o blog, tive que encurtá-las. Contudo, servem para abrir a reflexão. Segunda postarei, a segunda: Sobre os espaços de Deus...
Perdoem-me por algum errinho que tenha escapado neste texto, não consegui revisá-lo
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