quinta-feira, 30 de junho de 2011

Tríduo do Sagrado Coração - 2º dia

Coração – Sede da Sabedoria: Aprender do Senhor a profunda sabedoria do bem viver.

Texto Bíblico: Sl 19 (18): "Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos".

Reflexão: O termo hebraico que na bíblia constantemente designa sabedoria é Hokmah. Não se trata de mero saber conceitual ou intelectual. Está muito mais ligado ao "saber" da vida e ao "saborear" a vida. Como o homem do campo que descobre a presença do Senhor da Vida desde as coisas mais corriqueiras até as mais extraordinárias. Que sabe o gosto bom da chuva para a terra e se encanta com a força de vida de uma pequena semente de hortaliça, para, assim, apreender no cotidiano a beleza e o encantamento de viver na pedagogia do Criador, dando passos de crescimento rumo à humanidade liberta.

Tal sabedoria encontra sua morada neste lugar que chamamos de coração. Lá, onde nossos sentimentos, desejos, histórias e estórias se encontram com a verdade do Senhor de todas as coisas, nosso modo de viver é formado e consolidado. Dizia uma amiga: "É simples, só se vê bem com o coração". Esta frase foi marcante para mim! Evangelizar o coração é ensiná-lo a degustar o sabor da vida e da presença de Deus e dos outros. É romper as barreiras de fechamento para se abrir em vida. Para bocas destreinadas, até o mais sublime dos vinhos é vazio.

Oração: Deus, Senhor da vida e doador do verdadeiro sabor da existência, fortifica em nós a graça de saborearmos o dia a dia. Dai-nos querer sempre mais experimentar a novidade da Vida que vem de vós. Que o bom sabor da vida não se perca. Que a taça de nossa existência não se esvazie e perca sua força. Como o Cristo, dai-nos descobrir que o equilíbrio da vida se encontra entre o amargo e o leve, o salgado e o doce da história. Que o banquete da vida seja povoado pela variedade de sabores. Venha o teu Espírito, Verdadeiro Sabor. Amém!


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Festa de São Pedro e São Paulo - Comentário aos textos da liturgia da palavra do próximo domingo

1ª leitura: At 12,1-11: Herodes Agripa I, depois de mandar executar Tiago, filho de Zebedeu, manda aprisionar Pedro. A comunidade, unida em oração, entrega nas mãos do Senhor o destino de Pedro. Durante a noite, um anjo vem libertá-lo. Assim como na libertação do povo do Egito, é Deus quem age, libertando os seus do cárcere. É Deus quem liberta.

Sl 33: De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2ª leitura: 2Tm 4,6-8.17-18: O tom do discurso de Paulo é de despedida. Aparentemente, encontra-se só. Ninguém o assistiu em sua defesa. Contudo, fala com o coração cheio de gratidão. Fiel ao Deus da vida, "guardou a fidelidade": a sua e a dos fiéis. Por isso, verdadeiramente não está só. Deus o acompanha. Como o Cristo, o último ato religioso de sua vida é a entrega da mesma. Sua vida encontra-se nas mãos de Deus.

Evangelho: Mt 16,13-19: Em meio a tantas vozes dissonantes e confusas sobre Jesus, a clareza da fé professada por Pedro surge como a rocha firme sobre a qual a comunidade discipular dos tempos construirá, na graça do Cristo, o edifício de sua história. Jesus confia a Pedro o ministério de coordenar a comunidade (as chaves), o poder de ligar e desligar (= obrigar e deixar livre; decidir), com ratificação divina.

Breve Reflexão: Pedro e Paulo, duas maneiras de enxergar a mesma missão discipular de continuar o caminho do Mestre. Duas realidades coexistentes e que se completam na verdade de uma comunidade que se faz no seguimento ao Mestre pelos caminhos da história.

Podemos dizer que Pedro representa a dimensão eclesial mais interna do cuidado da fé. Caminhando em comunidade, crescendo no amor e no conseqüente conhecimento de Deus. Sobre o alicerce, a rocha firme que é a graça da fé, crescer a cada dia na vivência da liberdade dos filhos de Deus, na comunhão e na caridade inerentes à nossa condição de família de Deus. Experimentar, a cada dia, a libertação das cadeias do afastamento de Deus e dos outros, abrindo-se para a realidade de uma Vida que nos vem de Deus e nos eleva a patamares mais elevados de vida na comunhão do Espírito.

Paulo, por sua, na qualidade de pregador carismático da fé, instiga-nos à dimensão de uma Igreja que vive, face ao mundo, seu testemunho da verdade que a forma. A qualidade da fé de Paulo nos conduz na direção do mundo, de uma Igreja aberta, arejada pelos ventos do Espírito, que quer testemunhar, com alegria, mesmo nas realidade mais doloridas, a certeza da fé que a congrega.

Desta forma, compreendemo-nos como cristãos no encontro destas duas realidades. Dizer que acreditamos, não significa apenas professar um conjunto de afirmativas decoradas, mas que a realidade que professamos nos forma e nos leva a proclamar para o mundo, a partir deste lugar privilegiado que é a comunidade de fé, a alegria de estar na presença de Deus com os irmãos, vivendo o sentido maior que brota do coração de Deus e nos faz superar as barreiras dos contra-valores e sermos mais humanos.

Que a fé de São Pedro e de São Paulo, base e baliza da nossa fé, nos conduza a caminhos mais altos em nossa humanidade.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

P.S.:
1- Neste belo ícone, acima da cabeça de cada personagem, para identificar, o nome em grego dos santos: do lado esquerdo de quem lê, São Pedro, do lado direito, São Paulo.
2-Logo mais, a reflexão do segundo dia do tríduo do sagrado coração.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tríduo do Sagrado Coração - 1º dia

Coração – Sede dos sentimentos: Evangelizar as profundezas de nossa humanidade.

 

Texto Bíblico: Provérbio 15,1-33

 

Reflexão: Uma das coisas que nos caracteriza como seres humanos é o fato de sentirmos conscientemente. Quando amamos, sabemos que estamos amando. Quando sofremos, sabemos que estamos sofrendo. Mais do que isto, podemos refletir sobre nossos sentimentos. Na tradição bíblica, o coração aparece como o lugar da profundidade do humano, dos sentimentos sem máscaras, da vida e da morte em toda a sua força. Sacrário onde nossa humanidade se encontra sem véus com o Deus da Vida, as profundezas do coração humano acabam por se formar como lugar privilegiado da verdadeira conversão (Mt 6,21). Se a verdade intelectual, absorvida a partir de conhecimentos adquiridos, não é tocada e nem toca esta profundidade, morre na esterilidade, não produzindo vida.

Evangelizar as profundezas de nosso coração, portanto, de nossa humanidade, passa pela reflexão orante das ressonâncias daquilo que sentimos diante daquilo que se nos acontece. Faz-se necessário a busca de nossas próprias raízes, de nossos traumas, de nossas alegrias, enfim, daquilo que ao longo dos anos foi nos forjando ao longo da história. A partir daí, no processo de perceber e, de certa forma, trazer à palavra aqueles sentimentos e pulsões mais profundos que habitam nosso coração, podemos deixar que a Palavra do Senhor faça seu caminho em nós. Consciência de si para poder se deixar ser como Deus quer. Tocar os porões da própria história para que sejam redimidos na graça do Cristo.

 

Oração: Deus e Senhor da Vida, na vossa presença queremos derramar nossos corações. Dai-nos a graça de crescer no conhecimento de nós mesmos. Queremos descer ao mais profundo de nosso coração e ali encontrarmo-nos convosco. E, neste diálogo de amor, apresentar-vos nossas vidas, desejos, belezas e feiúras. Nós como somos. Tomai nosso coração em vossas mãos criadoras, redentoras e santificadoras. Concedei-nos a graça de, tocados por vossa presença, deixar que nossas histórias sejam tocadas por vosso amor que transforma. Curai as feridas da caminhada e consolide aquilo que em nós manifesta a vossa presença. Pedimos para este dia e para nossas vidas a luz de vossa benção que ilumina nossas sombras. Amém!


P.S.: Na noite de amanhã postarei o segundo dia.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Tríduo do Sagrado Coração - Para meditação individual

Caros amigos:

 

Nesta semana, estamos comemorando a festa do Sagrado Coração de Jesus. Semana tão bela de nossa espiritualidade não poderia passar em branco em nosso blog. Portanto, convido a vocês para três dias de oração, rezando as belas e profundas realidades do coração. Serão três temas, um para cada dia, começando hoje indo até sexta-feira, na festa do Sagrado Coração de Jesus. E aí, vamos fazer este caminho de bênçãos e meditação juntos? Espero por vocês.


P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

XIII Domingo do Tempo Comum - Ano A

1ª leitura: 2 Rs 4,8-11.14-16a: O profeta Eliseu é bem recebido na casa de um casal idoso. Aonde o profeta vai levando a palavra de Deus, o próprio Deus é quem segue junto. Quem acolhe o profeta do Senhor em sua missão, acolhe o próprio Senhor. Por isso a graça acontece na vida daquela família. Os corações estão abertos para a palavra do Senhor.

 

Salmo 88: Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor.

 

2ª leitura: Rm 6,3-4.8-11: Paulo trabalha, neste breve trecho da carta aos Romanos, o batismo. Imersos no Cristo (a palavra batismo encontra seu sentido etimológico no verbo grego que significa imergir) nossa vida encontra seu sentido na medida em que vamos nos conformando ao Cristo. Isto significa acolher, como o Cristo acolheu, não só a glória da ressurreição, mas também a realidade dura da dor da fidelidade a Deus na cruz, na medida em que o confronto com o mundo que não aceita a verdade do Cristo se acirra.

 

Evangelho: Mt 10,37-42: No tempo comum, celebramos, enquanto comunidade de fé, nossa continuidade na missão do Senhor. O presente trecho encerra o sermão missionário de Jesus no Evangelho de Mateus. Aonde vai aquele que testemunha a palavra de Deus, aí vai também o próprio Senhor. Portanto, quem nega a palavra da testemunha, nega aquele que é testemunhado. Quem acolhe a verdade, acolhe a realidade maior manifesta no testemunho. Assim, acolher a Palavra não significa simplesmente uma síntese meramente intelectual, mas deve tocar o mais profundo da vida, causando verdadeira metanóia.

 

Breve Reflexão: Dois temas saltam aos olhos na 1ª leitura e no evangelho de hoje: o despojamento do missionário e o acolhimento. Na primeira leitura, Eliseu é acolhido por uma mulher sunamita e seu marido. Eles constroem, em sua casa, um quarto para abrigar o profeta quando passasse naquelas terras. Com as mesmas palavras dos hóspedes de Abraão (Gn 18,14 – que também é uma narrativa sobre a hospitalidade), Eliseu agradece a acolhida. Acolher um enviado do Senhor, é acolher a própria palavra do Senhor que ele traz.

O Novo testamento também trabalha este tema, mas com um enfoque diferente. Eliseu era visto como "grande" homem de Deus. Já os discípulos, eram "pequenos" diante do mundo. Vivendo a dificuldade e rejeição dos primeiros tempos da pregação, os discípulos não têm lugar de destaque diante da sociedade. Assemelham-se ao Mestre, inclusive ao serem rejeitados pelos grandes. Outro tema caro a Mateus surge com força: acolher e fazer o bem aos pequenos é grandeza aos olhos de Deus (Mt 25).

Portanto, entre os "pequenos" discípulos e o Mestre, há profunda identificação. Quem os recebe, recebe o próprio Filho e o Pai. O acolhimento é sinal de verdadeira abertura para a verdade e o modo de vida de Jesus. Não é o fausto aos olhos que preenche o coração, mas é o verdadeiro brilho do Cristo presente na fraqueza destes homens que realmente toca. Como disse uma amiga, "só se vê bem com o coração".

Por sua parte, a simplicidade do profeta/discípulo revela que não são belas teorias e retórica que formam o centro de sua missão, mas seu desejo é tocar os corações para a verdade do Cristo que ele experimentou pessoalmente e em comunidade e que faz ele relativizar tudo mais pelo Reino. Que brilhe em nós, apesar de nossa fraqueza, a beleza do Cristo. Fazendo-nos pequenos, Tornemo-nos grandes para o Reino!


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Corpus Christi

Trata-se de uma festa bem antiga da tradição litúrgica católica. Foi instituída pela bula Transiturus do Papa Urbano IV em 11 de agosto de 1264. É celebrada na quinta-feira seguinte à festa da Santíssima Trindade.

Seu sentido maior encontra-se na celebração do que, em eclesiologia, chamamos de Cristo Total, ou seja, a unidade entre o Cristo-Cabeça e seu corpo, a Igreja. A eucaristia, como memorial do Mistério Pascal do Cristo e sacramento cotidiano de nossas comunidades (comunhão no corpo de Cristo, pão e vinho eucaristizados), é quem forma a comunidade neste Mistério de unidade. A Igreja que celebra a memória eucarística do Cristo é formada pela graça contida no próprio ato que ela realiza. Portanto, a festa de hoje é celebração da unidade do Cristo e da Igreja no Mistério da Eucaristia.

Lembro-me de um texto antigo, conhecido por certa tradição como catequese dos Apóstolos, chamado Didaché. Traduzindo do grego, o texto diz o seguinte: "Da mesma forma como este pão partido havia sido semeado sobre as colinas e depois foi recolhido para se tornar um, assim também seja reunida a tua Igreja desde os confins da terra no teu Reino, porque teu é o poder e a glória, por Jesus Cristo, para sempre" (Cap. IX, 4). Mais adiante, no interior de uma epiclese, diz: "... Reúne dos quatro ventos esta Igreja santificada para o teu Reino que lhe preparaste, porque teu é o poder e a glória para sempre" (Cap. X, 5).

Assim, meus caros, no mistério desta unidade do pão eucaristizado, encontremos e celebremos a unidade de nossas vidas no Cristo. Que as desuniões sejam superadas pelo amor do Cristo que se entrega na dor e no drama da cruz e que se faz presente na partilha de alimentos tão simples, pão e vinho. Que os tapetes, que amanhã se farão em tantas comunidades pelo mundo a fora, sejam expressão de um coração que se dobra ao deixar passar o Mestre. Que a dignidade do Rei que nos reúne em um só corpo, nos faça reconhecer a dignidade de tantos que conosco formam o mesmo corpo. Que o grito contra a injustiça, o desamor e o egoísmo que desumanizam brote da consciência da dignidade de cada ser humano. Onde sofre o corpo humano, aí sofre o Cristo!


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Versículo Bíblico...

Retomando a série que andava parada...

"Que beleza, pelas montanhas, os passos de quem traz boas novas, daquele que traz a notícia da paz, que vem anunciar a felicidade, noticiar a salvação, dizendo a Sião: Teu Deus começou a reinar!"
Is 52,7

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Santíssima Trindade - Ano A

1ª leitura: Ex 34,4b-6.8-9: Deus se revela a Moisés como o Deus da misericórdia e fidelidade. Misericórdia, clemência, paciência, riqueza de bondade e fidelidade são atributos de Deus que encontram ressonância na oração de Moisés. A presença de Deus é a força do caminho de Israel. Ele se faz companheiro na caminhada do seu povo.

 

2ª leitura: 2Cor 13,11-13: No final desta carta, o Apóstolo Paulo condensa toda a sua teologia. O Mistério da Trindade se nos revela como Graça (Dom), Amor e Comunhão atuante em nossas vidas pessoais e comunidades. O Deus Trindade não é um Deus perdido nos altos céus, mas a realidade da Trindade nos envolve em sua verdade. O fruto desta certeza é uma vida vivida na alegria do Senhor, na realidade do Reino.

 

Evangelho: Jo 3,16-18: Santo Agostinho viu neste trecho o Mistério da Santíssima Trindade. Deus, o Filho e o Amor que os une em uma mesma obra salvadora. O Filho nos dá a conhecer o verdadeiro rosto de Deus Pai em seu amor. Deus se dá em seu Filho e, na entrega amorosa do Filho pela humanidade, vamos ao seio da Trindade na força do Espírito Santo que recapitula o Cristo em nós.

 

Breve Reflexão: Durante o tempo Pascal, pudemos aprofundar um pouco mais do Mistério da unidade entre o Pai e o Filho na obra salvífica. Em sua entrega na cruz, o Filho manifesta em sua plenitude o amor e a fidelidade de Deus. Na presença do Espírito, Dom do Pai e do Filho, esta obra de Salvação se concretiza em nós, na medida em que seu envio é para que permanecêssemos no interior do amor do Pai e do Filho, dando-nos participar da própria comunhão trinitária.

Desta forma, a festa que hoje celebramos vem coroar o tempo pascal fazendo como que uma espécie de síntese. Toda a obra salvífica, como compreendemos na fé, é obra trinitária. Desígnio do amor do Pai, manifesto em sua plenitude no Filho, permanente em nós pelo Espírito. Não se trata, portanto, de uma mera síntese lógico ou racional, mas de uma síntese a partir do próprio Mistério de Deus que se revela à humanidade. Na dimensão litúrgica, celebramos nossa vida participando da comunhão trinitária.

Que esta celebração nos incite a viver, na concretude de nossas histórias, a realidade para a qual fomos chamados a ser na Trindade.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A mística das pequenas coisas... Parte 1

Depois que comecei a estudar um pouco mais de fotografia e pude ter em mãos um equipamento razoável, percebi que um lado adormecido de minha sensibilidade começou a aflorar. Passei a me especializar em fotos de pequeninas coisas. Inclusive, a foto que você vê ilustrando este post foi tirada por mim em Carrancas – MG, lugar onde preguei a semana santa neste ano. O gosto bom de saborear estas visões e me encantar com isto passou a me invadir de maneira nova.
Confesso que experimentar esta face adormecida de minha sensibilidade tem provocado em mim muitas reflexões. Tempos atrás, aqui no blog, comecei uma reflexão sobre o olhar. Prometo que continuarei. Aliás, este pequeno texto pode muito bem se encaixar nela, uma vez que percebo que o nosso olhar, desavisado como anda, perde a grandeza da beleza da presença de Deus nestas pequeninas coisas. Transpondo nossa reflexão do mundo das coisas para o mundo das relações, a presença de Deus no corriqueiro e nas pequenas coisas da vida parece eclipsada pelo movimento, muitas vezes mercadológico, de um império do grande, voluptuoso e extraordinário.
Um olhar fugaz, um abraço, um beijo sincero, uma palavra, um rápido aperto de mãos... coisas que aos poucos vão perdendo o sabor em meio ao exótico do mundo atual. Contudo, como todo bom cozinheiro sabe, o mais caro dos peixes, por exemplo, só terá bom sabor se a pequenez dos temperos entrar em sua boa medida. Ingredientes simples, como o sal, as ervas, o azeite, coisas que nem vemos quando entramos em uma cozinha, na sua medida certa, fazem toda a diferença.
Acontece que, lenta e imperceptivelmente, os temperos, presentes nas pequenas e corriqueiras coisas, vão sumindo de nossas vidas. A encarnação mais uma vez me encanta... A grandiosidade de um Deus que se faz pequeno para, assim, escolher a humanidade como sal do mundo, tempero da Criação. É preciso apurar os sentidos do espírito para sentir a presença do sabor do Verdadeiro Espírito, sabor do Deus Verdadeiro.
Assim, termino sem terminar... Mais uma reflexão que fica em aberto para ser continuada depois.

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pentecostes - Liturgia do domingo

1ª leitura: At 2,1-11: Neste texto, Pentecostes é interpretado como acontecimento escatológico tendo como referência a profecia de Jl 3. Contudo, seu sentido maior é o de cumprimento da promessa do Cristo (cf. Lc 24,49). A presença do Espírito transforma a comunidade, marcada pelo medo, em Igreja missionária.

 

2ª leitura: 1Cor 12, 3b-7.12-13: A proclamação do senhorio de Jesus é a confissão de fé que une a igreja primitiva. É só no Espírito que esta confissão consegue ser mantida. Assim como do Espírito recebemos a unidade da confissão da fé, dele também recebemos a multiformidade dos ministérios. No diverso que somos, o Espírito nos faz um em Cristo.

 

Evangelho: Jo 20,19-23: Pentecostes marca o encerramento deste grande período da Páscoa. Da sexta-feira Santa, passando pela Páscoa, até Pentecostes, uma única realidade é celebrada: a "Exaltação" de Cristo na Cruz e na Glória, fonte do Espírito que ele nos dá. No próprio dia da Páscoa o Senhor entrega o dom do Espírito aos discípulos e dá aos seus a sua paz e a missão de tirar o pecado do mundo, missão do próprio Jesus.

 

Breve Reflexão: Chegamos ao dia da grande festa que encerra o tempo Pascal. Pentecostes coroa com o Dom do Espírito Santo a alegria da glória do Filho em sua entrega pelo mundo. É festa da Igreja missionária, que encontra em seu Senhor, o fundamento de sua existência e missão. Celebramos, portanto, a própria vida da Igreja sustentada no Espírito Santo.

Mais do que unificação das línguas, Pentecostes é a unificação da linguagem humana, atos e palavras, verdadeiro sentido, no Amor redentor e salvador da Trindade. Um mesmo idioma passa então a ser falado e compreendido por aqueles que têm fé. Idioma este que é o próprio Reino de Deus. Assim, a unidade do Cristo total, cabeça e membros, passa a ser entendida no respeito à diversidade dos carismas, dos jeitos e particularidades de cada comunidade no exercício da missão confiada pelo próprio Mestre, sustentada pelo Espírito Santificador.

Celebrar o frescor renovador deste Espírito, ruah criadora, deve trazer às nossas comunidades a alegria de se encontrar a caminho, buscando consolidar de maneira sempre nova a missão que o Cristo nos deixou. Como barro nas mãos da Trindade, deixar-se ser moldado na aventura de ser com Deus no mundo.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Hokmah - A Procura da Poesia - Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Encontro...

Neste final de semana, encontrei-me com a morte em um box de UTI. Chamado às pressas para assistência eclesiástica a um doente terminal, me vi diante da morte com sua face implacável. Lembrando daquele filme do cineasta alemão Igmar Bergman, "O Sétimo Selo", senti-me um expectador do mórbido jogo de xadrez travado ali naquele lugar. Jogo que, cada um de nós, humanos que somos, um dia iremos travar.

Passou-me pela cabeça, naquele momento de total impotência que eu experimentava, a realidade que professo na fé. Como padre, coube a mim apenas rezar por aquele que sofria, sabendo que na batalha do débil corpo esgotado, a última palavra a ser dita é a do Cristo, ou seja, ressurreição e vida. Nestes momentos, o sentido último da vida é posto em destaque. Um sentido que é Dom, por essência. Arriscando-se no abismo da morte, como disse certo teólogo alemão, o Cristo regatou aquele que estava fadado ao nada, doando-lhe sua própria vida.

Um pensamento bíblico me ocorreu: "A vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá" (Sb 3,1-12). Aí está a centralidade de nossas existências cristãs. Nossa vida está nas mãos de Deus; é ele quem nos conduz para os caminhos da eternidade. A pequenez e a fugacidade de nossas existências encontram, assim, nova realidade neste sustento divino, e, por isso, nossas vidas caminham para a plenitude na graça maior de se encontrarem nas mãos do Criador. O definitivo não é a morte, mas sim, a vida sustentada por Deus que não encontra na morte uma inimiga, mas uma etapa dela própria.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma xícara de café e um coração...

Em uma xícara de café, encontrei um universo. Para alguns, isto poderia parecer uma loucura, mas foi realmente isso que aconteceu. No fugaz encontro com o líquido fumegante, pude sentir na garganta o ardor de vida de tantas pessoas que trabalharam para que este momento acontecesse. Sem ao menos conhecê-las, participei de um pouquinho de suas vidas e esforços. Veio-me ao coração a memória agradecida de tantos antepassados meus, homens e mulheres imigrantes, que gastaram suas vidas e esforços no cultivo de possibilidades de vida nos morros de café de um Espírito Santo que já não existe mais. Senti Deus...
Pequenos fragmentos que se encontram na mesa da eucaristia da vida. Celebrada em sacramento em cada missa que presido, encontro a presença de tantas vidas que se entregaram como o Cristo nas cruzes cotidianas, sem saber que seu futuro ressoaria naquele momento. Não se trata de nostalgia, se nas cabeças ela for sinônimo de tristeza. Sou invadido por imensa alegria de participar desta beleza da vida; da beleza de uma plenitude que já começa a ser participada aqui.
Aos poucos vou aprendendo a mística das pequenas coisas, dos pequenos gestos, do silêncio. Percebo a graça de uma Trindade que se revela em sua grandeza em coisas tão simples e corriqueiras que tendem a passar despercebida aos olhares cansados e cegos pelo cotidiano massificante. Sinto que meu coração tem o tamanho daquela xícara de café...

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

Ascensão do Senhor

1ª leitura: At 1,1-11: Lucas, bem no início do livro dos Atos dos Apóstolos, estabelece uma espécie de dobradiça que liga este livro com seu Evangelho. Faz uma anamnese daquilo que aconteceu depois da ressurreição até a ascensão, terminando com a promessa do retorno do Senhor para que a obra seja consumada. Nesta ausência do Mestre, sua presença se faz real na própria ação dos discípulos. Eles continuarão a presença do Mestre que os acompanhará, não mais fisicamente, mas de outra forma, na força do Espírito da Verdade. Até a volta do Senhor, a realidade da Igreja é ser missionária.

2ª leitura: Ef 1,17-23: A oração do autor da carta se transforma em uma proclamação dos magnalia Dei realizados em Jesus Cristo. O ressuscitado, feito cabeça da Igreja por Deus, é quem a conduz pelos caminhos da história, ao passo que ela, sendo corpo do Cristo, continua a ação do próprio Senhor no mundo. Ela é, portanto, presença atuante do próprio Cristo no mundo.

Evangelho: Mt 28,16-20: Na despedida de Jesus, a dimensão missionária da Igreja fica mais ainda visível. Ele vai para o Pai, mas a tarefa de continuar sua missão para os povos continua na comunidade discipular. O mandato, "Ide pelo mundo e fazei discípulos meus...", torna-se baliza de vida para a comunidade cristã, pois é o próprio Mestre ressuscitado que lhes confia esta missão. Não é sem mais que este fato aconteça na Galiléia das nações.

Breve Reflexão: A marca missionária da comunidade dos fiéis aparece com grande força nesta liturgia. Chamados a continuar a ação do Mestre no mundo, vivendo na presença-ausência do Ressuscitado no Espírito, a comunidade pode ser compreendida como "Mãos e Pés do Senhor", pois, através dela, a palavra eterna do Pai continua a cumprir seu mandato de levar aos povos o Amor Maior.

Assumir esta realidade é tarefa da Igreja. Missão que acontece na radicalidade do seguimento, permeada pela falibilidade humana. Santa e pecadora, a Igreja segue pela história, dando testemunho da verdade maior que constitui seu fundamento. Gosto muito de fazer memória do conceito vindo do Oriente de "Theosís", traduzindo, divinização. No caminho pedagógico da Palavra no mundo, a comunidade tende a se desvencilhar daquilo que não corresponde ao Reino para, redimida, dizer ao mundo a verdade do Ressuscitado.

Viver esta missão supõe um plano ético-vital que se caracteriza por posturas que firmem o Reino entre nós. Deixar e denunciar o mundo de injustiças, fechamentos e, portanto, pecado, torna-se constitutivo do modus vivendi cristão. Tratar das feridas, compreendê-las e saná-las também fazem parte deste caminho redentor.

Deus nos inspire nesta ética nascida do Cristo! O Espírito do Ressuscitado nos conduza pelas estradas da vida! Vivamos nossa vida em comunidade na proclamação das grandezas de Deus, que são sua misericórdia e condescendência e encontram sua realização plena na comunhão da Trindade.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Hokmah - Carlos Drummond de Andrade

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade ".

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

A cada dia...

A cada dia quero estar

Em tua presença meu Senhor.

Vem, transforma meu viver

Faz-me teu seguidor!

 

Derrama tuas bênçãos meu Senhor.

Dá-me a alegria de saber

Que em tuas mãos está minha vida,

Que é teu o meu querer

 

Vem como fogo abrasador;

Que tua luz rompa as trevas.

Que eu seja um pouquinho

Daquilo que tu és.


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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Mais uma chaga...

Um hebdomadário de grande circulação em nosso país expôs, nesta semana, mais uma chaga de nossa Igreja. O conteúdo traz certo cheiro de "comida requentada", uma vez que está baseada em matéria publicada na revista italiana "Panorama" em junho de 2010. Mas o tempero novo vem da recente publicação do livro do jornalista redator da referida matéria, onde expõem, com mais pormenores, sua pesquisa. O autor escancara a prática de alguns presbíteros católicos que vivem vida dupla, sendo que em uma face, mostram-se piedosos e ascetas, enquanto, em outra face, vivem uma vida desregrada, marcada por atitudes eticamente reprováveis, até mesmo, em alguns casos, ilícitas diante do direito civil.

Santa e pecadora, a Igreja sofre com esta exposição. De maneira lúcida, é preciso buscar compreender mais profundamente o processo social que está por detrás destes acontecimentos. Acredito que, embora soframos como comunidade de fé, estas chagas precisam ser expostas com sanidade e coragem para que a profilaxia possa acontecer. É preciso tocar, limpar e medicar a ferida para que a gangrena não venha a acontecer.

Num primeiro momento, a matéria choca, pois alguns que exercem função de coordenação nas comunidades e seu testemunho diz para o povo que lhe foi confiado, vivem em suas vidas a inautenticidade marcada pela duplicidade. Contudo, é preciso ir mais fundo e perceber um processo social existente que acaba por tocar homens das esferas de coordenação eclesiástica.

Acredito que o problema mais profundo venha do processo de fragmentação que sofre o nosso atual momento cultural. Portanto, a questão toca ferida mais séria, que é a ausência de um sentido existencial unificador profundo, que norteie a história do indivíduo. Um grande pensador fala da "perplexidade" que o homem atual vive diante do pluralismo existente. Assim, não se trata apenas de uma questão meramente moral-eclesiástica, mas ético-humana, resvalando, inclusive, em âmbitos civis que não professam crer.

O que aqui digo, não se trata de um ausentar-se do diálogo das pluralidades, algo que é valor de nosso momento histórico. Mas sim, do fato de que alguns indivíduos conseguem viver, sem aparente sofrimento, diversos conjuntos de valores diferentes e, às vezes, antagônicos/opostos, a partir do lugar social que ocupam em determinado momento. Assim, o indivíduo não é mais um, mas diversos em máscaras que se alternam sem se misturarem. Há real, porém confusa, cisão da personalidade.

Disto decorrem patologias sociais sérias. Descompromissos com a vida humana que vão gerando feridas, não somente na vida eclesial, mas, também, na vida civil. Cito como exemplo do extremo patológico, sem querer desresponsabilizar alguém, que o problema da pedofilia, outra chaga vivida recentemente por nossa Igreja, encontra, em sua maioria dos casos, o agressor entre os membros da família; parentes de 1º e 2º graus. Contudo, problemas mais sutis, advindos deste contexto, acontecem no trato cotidiano. É só olhar à volta. Porém, isto fica mais latente quando tratamos de instituições públicas, como é o caso do Congresso, Senado e Igrejas.

É certo que muita coisa ainda pode ser dita sobre o assunto, inclusive por profissionais de áreas mais afinadas com os temas tratados, como a psicologia, psicanálise e sociologia. Contudo, quis tocar na ferida, para que não pequemos por negligência. É preciso muito carinho e misericórdia para tratar estes casos, uma vez que o processo extrapola o âmbito do "mal moral pessoal" e passa a "mal social", mas também é preciso verdade e justiça onde a dignidade humana é ferida.

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P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

P.S.: Caros: Trata-se de uma reflexão pessoal. Quase um desabafo.