sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
 
Clarisse Linspector

XXII Domingo do Tempo Comum – Ano C

1ª leitura: (Eclo 3,17-18.20.28.29): O texto trata da verdadeira modéstia; aquela de um coração que reconhece que só Deus é plenamente bom e poderoso em seu Amor. A grandiosidade do sábio está, justamente, em colocar sua confiança em Deus, sabendo que Ele é a fonte de toda bondade. Seus atos espelharão isto.

2ª leitura: (Hb 12,18-19.22-24a): As teofanias, manifestações de Deus, no Antigo Testamento eram caracterizadas por sua inacessibilidade. Deus habitava em meio ao "terrível". Em Jesus, a teofania por excelência, Deus se apresenta de maneira acessível e próxima ao ser humano. Na humanidade do Filho, a divindade de Deus se torna, abraçando a humanidade. Por isso, ela se gera uma profunda co-responsabilidade. Ou seja, Deus vem ao encontro do ser humano em sua Palavra, comprometendo-o em um modo de viver em Cristo, gerador da Verdadeira Vida.

Evangelho: (Lc 14,1.7-14): O evangelista Lucas tem uma predileção por mostrar Jesus sendo recebido como hóspede nas casas, participando da proximidade estabelecida na mesa da refeição. Com isto, ele nos apresenta um Jesus próximo, íntimo, imagem de um Deus que se faz próximo e, na relação, se revela ao homem, salvando-o. Neste episódio que hoje temos para nossa reflexão, Jesus é recebido para uma refeição na casa de um fariseu. Ele nos chama a atenção basicamente para duas atitudes: 1) não buscar os primeiros lugares, para que o dono da casa se veja obrigado a cedê-lo e 2) convidar aqueles nada podem dar, pois, somente assim se manifestará a gratuidade do gesto. Trocando em miúdos: saber receber de graça (humildade) e saber dar de graça (gratuidade), esta é a lógica da Redenção. Isto se manifesta de maneira plena na última ceia onde, o Senhor feito Servo, entrega a própria vida gratuitamente, salvando.

Breve Reflexão: A liturgia da Palavra deste domingo nos coloca diante de uma tríade que mui bem expressa a dinâmica do Amor-Redentor de Deus: graça – gratidão – gratuidade. Graça pois Deus, de maneira gratuita, como Dom, vem ao nosso encontro, de maneira plena m Jesus, informando-nos sua Vida. Gratidão é a atitude de um coração que reconhece a magnitude da graça divina que o abraça. Gratuidade é o fruto desta experiência de um ser humano que se entende gratuitamente amado e que se dar em amor-doação.

Amor gera amor! Santo Afonso, no interior de sua espiritualidade, nos reserva uma expressão para dizer dessa dinâmica: "memória agradecida"; a recordação constante do Amor com que somos amados por Deus e que se desdobra em gestos para com Deus e os irmãos. O amor gratuito é imitação do amor de Deus, na medida em que esta experiência do Dom de Deus encontra ressonâncias em nossas atitudes cotidianas.

Diz-nos um grande biblista, Pe. Konings, sobre este tema: "A autenticidade do amor gratuito se mede pela pouca importância dos beneficiados: crianças, inimigos, marginalizados, enfermos." Não se trata de deixar de gostar de pessoas queridas, parentes e vizinhos. Mas a imitação do amor gratuito, a hésed de Deus, encontra lugar de profunda manifestação de sua grandiosidade em nós na 'opção preferencial' pelos que são menos importantes.



--
P.e Maikel P. Dalbem, C.Ss.R.

P.S.: Depois de um tempo sumido, retomo as postagens. Espero que vocês possam aproveitá-las. Se possível, divulgem nosso blog. Abraço fraterno! Fiquem com Deus!